Apps de saúde: saiba como ajudam e quais são os riscos

Denner Perazzo

Publicado 24/jun5 min de leitura

Resumo

Tecnologia pode ser aliada de profissionais de saúde e pacientes, seja para facilitar um diagnóstico ou definir um tratamento, mas especialistas alertam que nada substitui o médico

aplicativos de saúde
Aplicativos de diagnósticos podem ser muito úteis, mas é preciso tomar alguns cuidados (Foto: Freepik/Reprodução)

Não é novidade o uso da tecnologia para ajudar as pessoas e os profissionais na área da saúde. Consultas on-line, à distância, por exemplo, estão se tornando cada vez mais comuns, ajudando pacientes que moram distantes da unidade de saúde, e médicos, facilitando e agilizando o procedimento

Além disso, em 2022, ainda estamos passando por uma pandemia de Covid-19, o que aumenta o receio das pessoas em irem a ambientes hospitalares, onde o risco de contaminação pode crescer consideravelmente. Como se não bastasse, os preços dos planos de saúde não param de aumentar, sendo que o último reajuste foi de 15,5%. Dessa forma, cada vez mais profissionais e pacientes buscam meios de reduzir custos. 

Um grande exemplo disso são os aplicativos de diagnóstico de doenças, que têm ganhado mais espaço entre pesquisadores, médicos e especialistas, se tornando muito útil no dia a dia na área de saúde.

Uma útil ferramenta

Porém, é muito importante destacar a palavra ferramenta, pois é isso que a tecnologia e, consequentemente, estes aplicativos são. Até porque o paciente deve sempre priorizar um diagnóstico médico, de uma pessoa que estudou para aquilo e é totalmente capacitada para tal. Os apps servem como suporte e nunca devem substituir um profissional.

Carlos Vaz, urologista e especialista em uro-oconlogia e cirurgia robótica, acredita que essa tecnologia é de bastante confiabilidade, porém, ressalta que ela nunca deve substituir o trabalho humano e profissional do médico.

“A confiabilidade e credibilidade são grandes e crescentes. A inteligência artificial veio para ficar e, quando utilizada adequadamente, é muito útil e ajuda enormemente no diagnóstico das patologias. Porém, na minha opinião, esses aplicativos são úteis apenas se utilizados por profissionais médicos. Neste quesito, a máquina ainda não substitui o ser humano. Acho que teríamos muitos erros de diagnóstico”, opina Vaz.

É o que reitera George Sabino, professor de Ciências Médicas e Fisioterapeuta e doutorando em Ciências da Reabilitação, lembrando que, embora não seja o comum, a procedência de alguns desses aplicativos pode ser duvidosa, sendo apresentado sem consultoria ou revisão de pessoas da área.

“O uso sem critério de qualquer prática é perigosa frente as consequências que decisões incorretas podem acarretar. Boa parte dos aplicativos é desenvolvida por profissionais da área da tecnologia, muitas vezes sem suporte de profissionais da área da saúde (médicos, enfermeiros ou fisioterapeutas, por exemplo) e sem pesquisa que fundamentem seu emprego e isso, ao invés de benefícios, acarreta prejuízos gerais, por exemplo, autocondutas danosas ou retardo na escolha do tratamento apropriado”, alerta George Sabino.

Felipe Mendes, neurocirurgião e MBA executivo em gestão em saúde pelo Hospital Albert Einstein, explica que os aplicativos não são feitos e lançados de uma hora para outra. É preciso todo um processo de pesquisa, apuração e validação, não só dos apps, mas, também, das informações ali contidas, garantido toda a confiabilidade que se é desejada.

"Quando um app da área da saúde e da parte médica é lançado, ele precisa ser validado antes. São realizados testes, comparações com as técnicas tidas como padrão ouro, em que vai ser possível diferenciar e ver se aquele tipo de método utilizado no aplicativo ou programa atende a critérios mínimos de validação para trazer algum grau de resposta. Isso é algo muito importante. Em relação à confiabilidade e credibilidade, nós sabemos que grande parte das vezes ele não vai substituir a consulta, a atenção médica  e a realização de exames, mas ajuda muito como uma ferramenta de triagem", explica Felipe Mendes.

"Podemos usar como exemplo alguns questionários e métodos como os dos aplicativos que tentam rastrear doenças neurológicas, no qual o paciente pode testar positivos em algumas respostas. Isso não quer dizer que aquela alteração já vai definir o que o indivíduo tem, mas vai servir como alerta para que ele procure o serviço de saúde  e um profissional especialista e capacitado para fazer o diagnóstico. Com isso, será possível dar uma vazão maior e estratificar de forma mais adequada aquele perfil de pessoa e paciente que necessita procurar e ser atendido com mais prioridade do que aquele outro que não demonstrou as suportas alterações de determinado aplicativo", exemplifica e completa Felipe Mendes.

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Foto: Freepik/Reprodução

Acesso à saúde de qualidade

Infelizmente, muitas pessoas não têm o acesso devido à saúde, seja por irresponsabilidade e falta de investimento do governo local ou, simplesmente, por morar em zonas periféricas e/ou afastadas de centros urbanos. Além disso, o urologista Carlos Vaz avalia que, nesses casos, os aplicativos podem ser úteis para os médicos e profissionais de saúde.

“A questão de acesso às populações mais carentes seria muito útil no seguinte sentido: com esses aplicativos, um médico que não é especialista (generalista) que atende a população de determinada região, seria capaz (com ajuda dos aplicativos) de fazer diagnósticos de doenças que ele tem pouco conhecimento ou até mesmo desconhece, e poderia fazer o tratamento adequadamente ou encaminhar esse paciente pra regiões de maior recurso”, explica Vaz.

Além da parte técnica, a comunicação e conhecimento presentes nos aplicativos de diagnóstico têm que ser de fácil entendimento, para, além de conceder um diagnóstico mais preciso possível, transmitir a informação de maneira clara e concisa, fazendo com que o paciente entenda exatamente o que e como proceder.

“Aplicativos e programas difundem informação e conhecimento, favorecendo o acesso mesmo de pessoas com menos recurso, como por exemplo, o aplicativo PhysioCode. Ele pode ajudar a compreender a postura do indivíduo e como ela se altera no tempo de forma quantitativa. Com isso, é possível compreender em parte como sua funcionalidade se modifica com a idade”, explica George Sabino.

"Outro ponto importante é que, em lugares mais afastados e remotos, onde o acesso ao profissional de saúde, principalmente os especialistas mais específicos é mais difícil,  a entrada de tecnologias de aplicativos e sistemas ajuda a tornar a medicina e os processos médicos mais universais. Com elas, agora, vai ser possível ajudar a tornar a avaliação inicial um pouco mais adequada e aqueles que tiverem alguma alteração diagnosticada nesses aplicativos, serão, ou pelo menos esse é o objetivo, transferidas de forma prioritária para a avaliação e cuidado médico", completa Felipe Mendes.

Avanços positivos

A prova de que, a cada dia que passa, mais e mais estudos e resultados positivos na área de aplicativos de diagnóstico acontecem, foi o desenvolvimento de um app para diagnósticos voltada para saúde mental.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia desenvolveram um aplicativo de celular que utiliza a câmera de selfie para fazer a detecção de problemas neurológicos como o Alzheimer e TDAH. Por meio do dispositivo, que detecta o infravermelho junto com a câmera de selfie, o aplicativo é capaz de fotografar e fazer medidas das pupilas dos usuários.

O aplicativo ainda está em fase de desenvolvimento, porém já apresenta feedbacks bastante positivos. Os primeiros testes foram realizados em idosos e, apesar de ser uma tecnologia recente, se mostra bastante intuitiva e simples de usar. Depois dos animadores primeiros resultados, os pesquisadores afirmam que “atingimos parâmetros próximos aos exames de diagnóstico de alto padrão utilizados atualmente”.

“Na área da saúde, há alguns anos, no Estados Unidos, boa parte dos médicos (74%) já usava aplicativos em sua prática, principalmente na consulta de medicamentos e prescrição. Todavia, como qualquer tecnologia em saúde (de ressonância a um site de internet com direcionamento de cuidados em saúde), sua aplicação tem que ser analisada com cautela”, informa George Sabino.

O futuro é ainda mais promissor

Atualmente, existem mais de 5.500 aplicativos de diagnóstico de doenças disponíveis para download nas lojas de apps para smartphones, como Google Play Store e Apple Store. Entre pagos e gratuitos, as funcionalidades e objetivos são diversas, além de ser direcionados para várias doenças, como hepatite, sinusite, apendicite e transtornos mentais.

Para o futuro, a tendência é que esse número cresça, pois, além do notório desenvolvimento dessas tecnologias, o investimento na área deve aumentar cada vez mais, seja na parte de desenvolvimento, seja na área de telemedicina.

Segundo pesquisa da Associação Paulista de Medicina (APM) e da Associação Médica Brasileira (AMB), 64,3% dos pacientes não somente aceitam a telemedicina, como gostam da modalidade. Além disso, ainda de acordo com a pesquisa, um em cada três médicos já realizam o procedimento.

“Na minha opinião, acho que isso é o futuro da medicina. A associação com tecnologia só tende a aumentar. Já existem aplicativos em que o médico faz a anamnese, coleta os dados com o paciente e, através dela e baseado no conhecimento médico, ele realiza uma entrevista dirigida com ajuda do app, resultando em um diagnóstico mais assertivo. Isso é fato e já existe. Então, nós temos que ficar atentos a esse tipo de tecnologia, porque, a cada dia que passa, vamos utilizá-la cada vez mais. Mas, obviamente, não vai e não deve substituir o médico”, opina Carlos Vaz.

É muito importante frisar isso. A tecnologia de diagnósticos via app nunca deve substituir um médico. Então, se você pretende ou já utiliza a tecnologia, tenha sempre isso em mente. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a principal causa de intoxicação ou envenenamento, é o uso indevido de medicamentos.

“Como a história mostra, a tecnologia vem para ficar e ela é impositiva. Todavia, dado o boom de tecnologia e, por vezes, a falta de critério, sua disseminação sem senso crítico pode ser lesiva. Estamos no momento aprendendo a separar o joio do trigo na parte de tecnologia. Infelizmente a custa de condutas impróprias e prejuízos para saúde”, deixa claro George Sabino.

Já Felipe Mendes, acredita que o acesso aos aplicativos tem que ser facilitado e barateado, podendo chegar a sociedade como um todo e contribuindo para uma saúde mais justa e acessível.

"Antes de falar das dificuldades, é importante ressaltarmos que os instrumentos, funções e aplicativos da área médica que ajudam a fortalecer esse cuidado com a  saúde é uma tendência super importante. É algo que, ao longo do tempo, vai estar cada vez mais presente na nossa vida como um todo. As grandes dificuldades para isso esbarram na questão da acessibilidade. Aqueles aplicativos ou sistemas que conseguirem se adaptar aos celulares comuns vão ser aqueles que vão ter um sucesso maior. Outros vão conseguir entregar o produto com um custo de aquisição menor ou uma taxa recorrência ou mensalidade mais baixa, atingindo assim mais camadas da sociedade como um todo", afirma Felipe.


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