Empreendedorismo Feminino: uma questão de revolução por tempos mais igualitários

Izabella Souza

Publicado 20/nov10 min de leitura

Resumo

Quando se faz necessário que a ONU estabeleça um dia para apoiar e incentivar o protagonismo das mulheres nos negócios, algo não está certo

No Brasil, há 30 milhões de mulheres brasileiras empreendedoras até o momento, segundo dados do Global Entrepreneurship Monitor, principal pesquisa sobre empreendedorismo do mundo feita em parceria com o Sebrae. Esse número é equivalente a quase metade do mercado empreendedor (48,7%), e só em 2020 cresceu 40%, conforme dados da Rede Mulher Empreendedora.

Ainda assim, aqui estamos nós falando sobre um dia de apoio e conscientização. Foi necessário que a Organização das Nações Unidas (ONU) estabelecesse um dia para homenagear, apoiar e incentivar o protagonismo das mulheres que estão à frente do próprio negócio, provando que ainda estamos longe do que vislumbramos como uma sociedade justa, respeitosa e igualitária. Afinal, seria necessário criar também o "Dia Mundial do Empreendedorismo Masculino"?

Superação: palavra que, neste contexto, precisa deixar de ser romantizada

Apesar da grandeza dos números, ainda se faz extremamente necessário destacar e fomentar a carreira e a independência das mulheres na liderança de empresas, visto que ainda há tantas barreiras a serem ultrapassadas. Principalmente quando lembramos que a busca por equidade de gênero e equiparação salarial faz parte de uma longa jornada na trajetória profissional de mulheres em todo o mundo.

Para se ter uma ideia, segundo o Fórum Econômico Mundial (FMI), serão necessários 136 anos para que a igualdade entre homens e mulheres seja alcançada globalmente.

Além da falta de oportunidades, desafios como maternidade, jornada dupla (às vezes tripla), assédio moral e sexual e até a dificuldade de ser ouvida por seus pares de trabalho são apenas alguns dos fatores que promovem e reforçam o afastamento feminino do mercado de trabalho. Segundo estudo da Universidade de George Washington (EUA), as mulheres são duas vezes mais interrompidas, mesmo em conversas neutras.

A mais recente edição da pesquisa anual sobre empreendedorismo feminino do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) mostrou que 34% das empreendedoras ouvidas já sofreram algum tipo de agressão em suas relações afetivas; 50% das que têm filhos alegaram que o fechamento das escolas impactou a rotina de trabalho e 79% acreditam que os cuidados com a casa e a família atrapalham mais as mulheres do que os homens que buscam empreender.

Segundo a Rede Mulher Empreendedora, as empreendedoras citam a dificuldade no acesso a crédito como a principal entrave para empreender no país. E além de tudo isso, as mulheres brasileiras foram, entre todas as empreendedoras do mundo, as mais prejudicadas com os impactos econômicos causados pela pandemia de covid-19, segundo a pesquisa “Womenomics: Covid-19’s Impact on Goldman Sachs 10.000 Women and 10.000 Small Business Alumni”, do banco Goldman Sachs.

Frente ao descrédito, ao preconceito e a todas essas questões levantadas, o que resta, senão a superação?

"Uma causa que é de todos e não apenas das mulheres"

Dafne Morais, professora do Programa de Pós-Graduação em Administração da FEI, ressalta a importância de conscientizar a mulher pelas suas competências e qualidades. "Além das políticas públicas como incentivo para o empreendedorismo feminino, é preciso pensar na cultura que foi desenvolvida ao longo do tempo e trabalhar para que haja uma transformação. Fazer com que as mulheres acreditem mais nelas mesmas e estimular movimentos que defendam a diversidade e ajudem a dar voz para essa causa".

(Foto: Arquivo Pessoal)
A professora Dafne Morais (Foto: Arquivo Pessoal)

À medida que esses movimentos e redes de apoio à mulher ganham força, vemos essa transformação cultural acontecendo de forma gradativa. Cada vez mais mulheres lutam por ocupar espaços e a representatividade feminina em diversos setores já é uma realidade, embora em números distantes dos ideais.

Tão importante quanto celebrar as vitórias já alcançadas em prol da igualdade de gênero é saber que ainda há um longo caminho a ser percorrido. "É importante lançar luz a uma causa que é de todos e não apenas das mulheres, até que a igualdade seja realidade", defende Dafne.

Elas contra o mundo

Somente uma mulher já sentiu na pele ou compreende a gravidade do que é passar por esses e tantos outros desafios fadados a nós. Por isso, quando as empreendedoras começam seu próprio negócio, conscientemente ou não, buscam apoiar seus pares.

A pesquisa IRME 2021 mostrou que, entre as empreendedoras que possuem sociedade, sete em cada dez têm sócias e 73% dos empreendimentos liderados por mulheres são majoritariamente femininos, contra apenas 21% dos empreendimentos liderados por homens.

Além desse apoio, as mulheres também têm saído na frente nos quesitos inovação, adaptação e criatividade.

Uma pesquisa do Sebrae, de agosto de 2020, realizada em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), analisou pequenos negócios fundados por homens e mulheres. Nessa análise, foi captado que as empreendedoras demonstraram capacidade de se adaptar mais rapidamente diante das medidas de isolamento social, utilizando mais as vendas online e ofertando mais produtos e serviços que os empreendedores.

O mesmo estudo mostrou que as empreendedoras demonstraram mais agilidade na adoção de estratégias de inovação nos negócios durante a pandemia. Onze porcento das entrevistadas afirmaram ter inovado em seus negócios durante a crise, enquanto 7% dos homens declararam ter feito alguma mudança voltada à inovação.

O trabalho também levantou outro diferencial entre os negócios analisados: 71% das mulheres usaram e ainda usam redes sociais, aplicativos e a internet para comercializar seus produtos e serviços, enquanto 63% dos homens usaram e usam essas ferramentas.

Uma questão social

Além de contribuir para o crescimento da economia e para a criação de empregos, o empreendedorismo feminino tem a força e o poder de transformar, também, as relações sociais. Afinal, quando mulheres alcançam independência e autonomia financeira, vem a realização de que elas são fortes e autossuficientes, e que não precisam depender nem se prender a qualquer tipo de relação abusiva. 

Além disso, esse protagonismo feminino ganha cada vez mais força para continuar impulsionando a nossa cultura e história a um lugar de avanço. Nunca é demais lembrar que foi apenas na década de 1960 que mulheres passaram a ter o direito a uma conta bancária independente do pai ou marido, por exemplo. Até 1962, mulheres casadas precisavam da autorização de seus maridos para trabalhar fora.

É o que ressalta o sociólogo e historiador Igor Sampaio. "Vejo a independência financeira nas relações sociais femininas uma maneira de romper com o paradigma do patriarcalismo que ainda assola as relações interpessoais. Com essa quebra de paradigma, a sociedade pode se beneficiar de muitas maneiras. Por exemplo, num sistema de melhor distribuição de trabalho e renda. Ou seja, numa sociedade mais igualitária e justa".

É como disse a professora e filósofa Angela Davis: “Você tem que agir como se fosse possível transformar radicalmente o mundo. E você tem que fazer isso o tempo todo.”

Izabella Souza

Repórter


Compartilhe essa notícia


Esse conteúdo foi útil?

Siga o Inset

Conheça o Inter

De banco digital para plataforma de serviços integrados: o Inter se reinventou e cria o que simplifica a vida das pessoas.