Vida a dois na ponta do lápis: gaste com transparência

Alexandre Diniz

Publicado 28/set10 min de leitura

Resumo

Especialistas em finanças e comportamento apontam que casais ainda enfrentam tabus quando o assunto é dinheiro. Soluções simples podem ser muito eficazes

“Quando a gente ama, não pensa em dinheiro, só se quer amar”. A poesia de Tim Maia, cantada em verso e prosa durante todos esses anos, evidencia a força do amor nas relações. Mas sem desmerecer a beleza e a verdade da letra, alguns números e análises apontam para uma realidade no sucesso da vida a dois que depende de um pouco mais de cuidado quando o assunto são as finanças. A falta de transparência e controle na administração dos gastos é um dos principais motivos de briga dos casais no Brasil. 

Números da última pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) com brasileiros casados ou que têm união estável mostram que 40% deles se desentendem por conta de dinheiro. E não para por aí. Faltar com a sinceridade em relação à existência de algum gasto é responsável por 28% das desavenças.

Os números chamativos, no entanto, não surpreendem Graziele Ferreira, 35, planejadora financeira e fundadora do Projeto Mulher Investe, de Belo Horizonte. Para ela, além de algumas causas culturais, o problema começa ainda nas escolas: “Conteúdos de educação financeira praticamente não são trabalhados com nossas crianças e jovens. Com isso, a relação com o dinheiro vai se tornando menos natural. O resultado é que as pessoas crescem associando o tema a algo um pouco ruim, limitador, e não como fator de liberdade”, afirma.

Segundo a especialista, a falta de planejamento pode ser apontada como o principal fator de desentendimento quando o assunto acaba vindo à tona na relação. “Os casais infelizmente não tratam a questão financeira como pauta no início do relacionamento. Esse tipo de diálogo vai sendo adiado sempre, mesmo quando a união já está bem estável. Com o tempo, vai virando uma bola de neve’’, comenta. 

Graziele afirma ainda que a pandemia do Coronavírus ajudou as pessoas a enxergarem essa dificuldade com mais clareza. “Vimos muitos dados apontando um aumento no número de divórcios durante o período de mais restrições. Claro que o aumento na convivência e outras questões de comportamento contribuíram para o quadro, mas acredito que muitas situações foram potencializadas pela falta de dinheiro. As pessoas não tinham uma reserva de emergência para um momento de crise, o que é comum acontecer”, diz ela.

Números da pesquisa do CNDL e SPC Brasil reforçam a análise, evidenciando que 34% dos participantes sequer possuem realmente algum tipo de reserva de dinheiro.


Citação
Os casais infelizmente não tratam a questão financeira como pauta no início do relacionamento. Esse tipo de diálogo vai sendo adiado sempre, mesmo quando a união já está bem estável. Com o tempo, vai virando uma bola de neve.
Graziele Ferreira, planejadora financeira

O velho e bom olho no olho

Os problemas vieram? O primeiro passo para superá-los não é segredo. As soluções para quem enfrenta algum tipo de crise no relacionamento por conta da administração dos gastos passam essencialmente pelo diálogo aberto. Parece lógico, mas a prática mostra que isso ainda não ocorre. Os dados do levantamento feito pelas duas instituições mostram que apenas 58% dos casais informam o cônjuge sobre a existência de reservas financeiras. Pouco mais da metade. Destes, só 24% informam o valor da reserva.

Para que a situação não chegue a um ponto insustentável, mais cedo ou mais tarde, essa conversa deve acontecer abordando quatro pontos chave. São eles: quanto cada um ganha, quanto cada um tem de dívidas, quanto gastam por mês e quanto conseguem economizar. “O importante é não ter medo de olhar no olho e definir metas. O que temos e onde queremos chegar. Além disso, é interessante separar o que é meu, o que é do parceiro e o que é do casal. Isso certamente facilita e muito”, orienta Graziele.

Os perfis de consumo e a maneira como cada um encara o dinheiro devem ser colocados o quanto antes na mesa, já que as práticas e anseios podem ser diferentes. “Muitas vezes, um gasta mais e outro gosta de poupar. Se isso não é exposto, começam práticas de consumo escondidas, dívidas e falta de confiança”, afirma a planejadora financeira. 

Justamente sobre isso, a pesquisa mostra um número interessante: 20% das pessoas, ou seja, um a cada cinco participantes diz que revela apenas parte do que consome para o(a) companheiro(a). Outro ponto que vale a pena ressaltar é a postura de domínio que, normalmente, o integrante do casal que ganha mais assume.

“Quem tem rendimentos maiores costuma se achar no direito de tomar todas as grandes decisões financeiras sozinho. Isso gera um desconforto grande para a relação. Por isso a conversa é o início para um bom planejamento”, ressalta a especialista.

Dinheiro não deve ser agravante, mesmo na falta dele

Diálogo, planejamento e, por último, conhecimento. Essa é a tríade que Graziele acredita funcionar bem para não deixar o dinheiro se tornar motivo de crise na relação. Para alcançar o terceiro item dessa lista, as pessoas devem perder algo que ainda têm muito: o medo. Embora as informações sobre mercado e finanças estejam em grande quantidade de oferta, a maneira como elas são tratadas ainda deixa a impressão de que organizar os gastos e investir o dinheiro em boas alternativas está distante da realidade do cidadão comum.

“Grande parte da população ainda acha tudo isso difícil. Mas se organizar e investir é simples. Basta uma orientação básica e saber onde buscá-la para que esse medo vá embora”, afirma.

Outro mito que ainda recai sobre muitos brasileiros, e que atrapalha os casais na hora de se acertarem financeiramente, é o de que, para investir e criar uma reserva, é preciso muito dinheiro. “Com dez reais é possível começar a investir. Às vezes até com menos. Me perguntam sempre: quanto nós, como casal, precisamos para começar? A resposta é simples: o quanto vocês tiverem. Importante é que movimentar o dinheiro torne-se um hábito. Poupar, investir, ganhar mais. Essa a ideia”, conclui Graziele.


Citação
“Com dez reais é possível começar a investir. Às vezes até com menos. Me perguntam sempre: quanto nós, como casal, precisamos para começar? A resposta é simples: o quanto vocês tiverem. Importante é que movimentar o dinheiro torne-se um hábito. Poupar, investir, ganhar mais. Essa a ideia”.
Graziele Ferreira, planejadora financeira

Casais no psicólogo
Casais normalmente procuram ajuda profissional quando a situação já está quase insustentável (Foto: Envato Elements)

Autoconhecimento e maturidade emocional também são fundamentais

Contas na calculadora, organização de listas e planilhas de despesa, criação de um fundo de reserva, seleção dos melhores investimentos. Tudo isso é essencial para que o casal não crie monstros na hora de lidar com os gastos comuns. Mas esses passos só funcionam quando a saúde mental está em dia e existe, de fato, maturidade para encarar as dificuldades no relacionamento. É o que aponta o psicólogo clínico e especialista em casais, Lucas Neves. 

De acordo com ele, cerca de 80% dos casos que chegam ao consultório dele em São Paulo, já em uma realidade próxima do divórcio, têm como um dos principais problemas a administração do dinheiro. Além disso, ele detecta que uma discrepância econômica grande entre um parceiro e outro aumenta consideravelmente as chances de separações. 

“Muitas vezes, pessoas com valores muito diferentes fazem uma aposta em um relacionamento e acabam se decepcionando. Quando as diferenças inevitavelmente chegam, a falta de capacidade de regulação emocional para lidar com elas acaba deixando a resolução mais difícil”, comenta Lucas.

Seja flexível

Embora as características de cada casal sejam únicas, Neves explica que uma das soluções normalmente muito eficazes é justamente fazer um esforço para flexibilizar algumas crenças já cristalizadas antes do relacionamento: “Não podemos esperar resultados diferentes com os mesmos comportamentos. Portanto, um caminho interessante é evitar esse estado de negação, de achar que o problema está sempre no outro. Com isso, é possível dialogar e começar, de fato, o que eu considero uma relação a dois”, explica. 

O psicólogo completa que o problema que começa no bolso se estende para outros campos. “A falta de transparência desperta sentimentos como insegurança e desconfiança, e isso vai tomando conta da relação”, diz.

O caminho no Brasil para um cenário de mais clareza com as despesas a dois ainda é longo, mas o especialista observa que casais mais jovens já apresentam um pouco mais de transparência na relação.

“Pares com idade mais avançada tendem a ter comportamentos mais tradicionais. Aquela ideia do homem provedor e que toma conta de todas as finanças. Não é regra, mas a evolução do mercado vem fazendo com que a geração mais nova, independentemente da orientação sexual, entenda melhor que é preciso mais equilíbrio nas forças quando se fala em dinheiro”, conclui.

Ajustes constantes e preocupação redobrada com filhos

O administrador mineiro Victor Salim, 35, percebeu que precisaria ficar atento aos gastos comuns feitos junto com a esposa Júlia, médica, quando eles foram morar juntos, pouco antes do casamento. Ele conta que os dois têm perfis diferentes, tanto de consumo quanto de atenção com as finanças. Dessa forma, ele detectou rapidamente que, sem transparência absoluta e um método de controle, as coisas não caminhariam bem. 

“Conversamos e começamos a organizar uma planilha, até porque nossos rendimentos variavam todo mês. E estabelecemos o critério da proporcionalidade para pagar tudo, que foi o que achamos o mais justo e saudável para o nosso dinheiro”, explica.

Nesse caso, os gastos fixos comuns são somados, criando um valor único de despesa. A partir daí, a parte que cada um deve desembolsar para quitar as contas é calculada por proporção de renda. Quem ganha mais, paga um pouco a mais.

Importante frisar que a maneira como ocorrem as divisões e os cálculos variam em cada caso e, portanto, devem ser um acordo do casal. Para Victor, por exemplo, a proporcionalidade vale para as despesas mais importantes. Em relação ao que ele e a esposa consideram supérfluo, como lazer, a divisão passa a ser feita com 50% para cada. “Foi a maneira que achamos mais harmoniosa por aqui. E funciona muito bem”, afirma.

O casal Victor e Júlia readaptou a dinâmica de gastos após a chegada da filha Helena (Foto: Lau de Castro - Arquivo Pessoal)

Adaptações constantes. Esse é o caminho mais indicado quando o casal começa a organizar melhor a vida financeira no relacionamento. Mudança de emprego, despesas de emergência...filhos. Foi justamente o que aconteceu com o administrador no final de 2019, com a chegada da pequena Helena.

“O primeiro filho trouxe uma nova dinâmica para casa. Novos gastos, claro, mas novas maneiras de calculá-los. No início, dividíamos as despesas pela metade. Foi quando a Júlia me atentou para o fato de que a Helena fazia parte dos nossos gastos fixos e, por isso, deveriam ser divididos de maneira proporcional. Adaptamos”, comenta.

Por fim, um fator interessante que deve ser levado em consideração: o controle financeiro e as definições do que cada um deve pagar não devem diminuir nem anular as pequenas gentilezas que mantêm a relação aquecida. Presentes, uma conta de restaurante paga e por aí vai. Graziele afirma que isso deve entrar nas contas "macro" do casal. Salim, por sua vez, considera isso fundamental para que a relação não perca o brilho. 

“A intenção é fazer com que nossa organização do dinheiro deixe as coisas mais leves para o que realmente importa. E não que engesse a relação”, finaliza o administrador.

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Alexandre Diniz

Repórter


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