Pandemia divide expectativa dos foliões

Letícia Almeida

Publicado 06/nov6 min de leitura

Resumo

Enquanto alguns já estão com viagens marcadas e abadás garantidos, outros ainda temem a segurança do evento

Em 2019, a estilista Jéssica Andrade deixou o Carnaval de Belo Horizonte (MG) para curtir a festa em Salvador (BA), cidade em que a engenheira civil Taila Melo mora e onde também passou o período. No mesmo ano, a professora Fabiana Abaurre ajudava a endossar o coro do Carnaval belorizontino tocando xequerê nas baterias de blocos da cidade. No Rio, o empresário Marcelo Almo também festejava nas ruas, em meio aos cortejos dos tradicionais desfiles cariocas. 

Dois anos depois, o som que ecoava pelas avenidas dessas capitais era o do silêncio: as ruas estavam vazias, e Jéssica, Taila, Fabiana e Marcelo - assim como outros milhões de brasileiros - comemoraram o fevereiro dentro de casa. Pensando em 2022, alguns deles já se preparam para quando o Carnaval chegar; outros, aguardam o andamento da pandemia e a autorização oficial do evento para considerar uma programação. 

A mineira Jéssica, 30 anos, é uma das que não vê a hora de repetir a dose do que viveu em 2019: aproveitar o Carnaval na Bahia. A estilista garantiu desde já o pacote de ingressos para ir todos os dias ao Camarote Salvador, um dos camarotes mais conhecidos e prestigiados da folia baiana. Apesar da celebração na cidade ainda não estar confirmada pelos órgãos responsáveis, a venda de abadás de alguns trios e festas fechadas já está acontecendo.

Foto: arquivo pessoal
Desde 2018, Jéssica vai a Salvador para curtir o Carnaval e já está preparada para voltar à capital baiana no ano que vem (Foto: arquivo pessoal)

“Compramos os ingressos porque o Camarote garante o reembolso caso o Carnaval não aconteça. Mesmo a prefeitura não tendo confirmado, eu não enxergo a possibilidade de não ter Carnaval no Brasil, até porque é algo que movimenta muito a economia e estamos precisando disso”, comenta. “Ficou tanto tempo sem evento de verdade que acho que vai ser muito legal e estou com bastante expectativa”, completa a estilista.

Quem também se prepara para viajar é a baiana Taila Melo, que cogita ir para Recife (PE) pela primeira vez. A engenheira já está em busca de hospedagem e de passagens e chegou a olhar ingressos para algumas festas carnavalescas. A capital de Pernambuco também aguarda o desenrolar da pandemia para cravar os rumos do evento.

“Caso as festas não sejam realizadas, existe a possibilidade de ir apenas para conhecer o lugar e aproveitar o que vai ter de evento, porque, querendo ou não, a vida já está voltando ao normal. A gente precisa se adaptar às condições atuais agora ou então não vamos aproveitar mais nada”, desabafa a jovem.

“2022 é uma interrogação gigante”

A professora universitária Fabiana Abaurre, 58 anos, não está tão confiante de que o Carnaval vai ser possível. Desde 2017, a mineira toca nos blocos de rua e sempre acompanha os ensaios das baterias, que costumam começar já em setembro do ano anterior. Para o ano que vem, no entanto, ela ainda não viu nenhuma movimentação.

“2022 ainda é uma interrogação gigante. Prematuro dizer, mas acho pouco provável que teremos Carnaval de rua como nos habituamos em BH. Se começarem os ensaios, talvez me encoraje a ir. Sobre a rua, no bloco mesmo, ainda não sei se iria”.

Foto: arquivo pessoal
"Prematuro dizer, mas acho pouco provável que teremos Carnaval de rua como nos habituamos em BH" (Foto: arquivo pessoal)

Citação
Por enquanto, importa é termos muita vida para comemorar a existência - e isso não é retórica. Milhares de mortos e muitas perdas nos fazem repensar prioridades e escolhas. Para mim, que quero um país mais justo, justiça vai sempre rimar com saúde para todos
Fabiana Abaurre, professora universitária

Giovanna Perez, 21 anos, compartilha do mesmo sentimento. Embora acredite que a festa seja inevitável, ela teme a segurança do evento e ainda titubeia ao pensar se iria para as ruas. “Acho que vai depender do tipo de postura que vamos estar tendo até lá, quais as medidas que as pessoas vão estar tomando, a questão da vacinação e como vai estar o governo. Eu não sei se vai ser possível curtir de forma segura, mas acho que não vai ter como impedir as pessoas de irem”, avalia.

A estudante de lazer e turismo costuma passar a data em São Paulo (SP) e, desde 2018, acompanha os blocos da cidade. Em outubro, o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), disse que pretende realizar o maior Carnaval da história, com expectativa de 15 milhões de pessoas, se os impactos da pandemia continuarem diminuindo.

“Se continuar com os dados de hoje, com aumento de vacinação e queda no número de óbitos, vai ter o Carnaval”, afirmou. 

Folia extraoficial 

Já o empresário Marcello Almo, 41 anos, decidiu: vai curtir o Carnaval, seja a festa autorizada ou não. O carioca espera que a prefeitura confirme o evento, tendo em vista o avanço da vacinação e a diminuição dos casos de covid-19, mas, se isso não acontecer, ele acha que “vai rolar uma coisa ou outra e vai dar para curtir ‘extraoficialmente’”.

Vacinado com duas doses, Almo aguarda ansioso 2022 chegar para matar a saudade de andar pelas ruas fantasiado na companhia dos amigos. “A expectativa é de poder estar junto das pessoas de novo na alegria que é a festa toda”, comenta.

Quem trabalha no período e teve as contas prejudicadas por conta do hiato em 2021 também vê em 2022 um respiro de alegria. Fernando Trindade, conhecido como Nandão do Catuçai, comercializa a famosa bebida de açaí com catuaba nas ruas de BH, e é no Carnaval que as vendas aquecem. Com a chegada do próximo ano, ele garante que vai aonde a folia estiver.

“Existe muita expectativa e receio nesse provável Carnaval de 2022, mas como as coisas já estão normalizando, acredito que vai ter. Eu vou onde a folia estiver, seja oficial ou não. Quando tudo recomeçou, a prefeitura não participava de nada e era maravilhoso”, diz o vendedor ambulante, referindo-se à retomada da festa popular nas ruas de Belo Horizonte, que aconteceu em 2009 e ganhou força a partir de 2013.

Letícia Almeida

Repórter


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