Morar sozinho: sonhos, perrengues e independência

Alexandre Diniz

Publicado 19/out6 min de leitura

Resumo

Três jovens contam a experiência de dar esse passo, sair da casa dos pais e como a mudança vem transformando suas vidas

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Foto: Envato Elements

Um movimento transformador. Morar sozinho pela primeira vez significa experimentar uma série de mudanças de vida, sobretudo quando se é jovem. Novas responsabilidades, uma rotina diferente e, claro, uma outra maneira de lidar com o dinheiro.

Cada experiência é única, inegável. Mas todas elas trazem consigo alguém cheio de sonhos e um processo que envolve planejamento, insegurança, conquistas, algumas surpresas e muito aprendizado. Todos estes ingredientes estão presentes nas histórias de Luis Felipe, Alexia e João Carlos. Um mineiro, uma baiana e um fluminense. Três trajetórias diferentes, três jovens que, por diferentes motivos, saíram da casa dos pais para viverem sozinhos há relativamente pouco tempo. E que se descobrem a cada dia.

Um susto ao ver quanto custava mobiliar um apartamento, o aperto de saudade da família e do crossfit e até um “chá de despedida” virtual organizado da mãe. Conheça e se inspire um pouco nas histórias de cada um durante essa importante etapa de vida.

LUIS FELIPE DE PAULA

30 ANOS

MINEIRO DE BELO HORIZONTE

Uma ideia que foi amadurecendo aos poucos. Depois de anos morando com os pais, Luis Felipe sentiu a necessidade de aliviá-los financeiramente de algumas despesas e poder, novamente, dar a eles o conforto da vida a dois. A irmã mais velha já havia saído de casa e ele era o único filho ainda por lá. Somou-se a isso a vontade grande de sentir mais autonomia, independência e senso de responsabilidade.

Estes “ingredientes” foram suficientes para montar a receita: Luis começou a pesquisar com afinco um apartamento para morar sozinho em Belo Horizonte (MG). Em meados de abril de 2020, o projeto se concretizou.

“Além de tudo, queria que esse movimento fosse também um motivo de orgulho para os meus pais. Acredito que sair de casa seja uma etapa importante no relacionamento entre pais e filhos e sentia que era hora de avançar nesse sentido”, comenta.

Experiência de vida que fez diferença

“Eu tive a sorte e o privilégio de realizar dois intercâmbios internacionais durante o período de faculdade. Durante a minha estadia fora do país, dividi apartamento com outros estudantes e, de certa forma, isso me preparou para quando esta etapa de morar sozinho chegasse. Além disso, o que fiz, de fato, para me preparar para a transição foi pesquisar bastante antes de escolher o apartamento para alugar. Antes de tomar qualquer decisão, busquei elencar quais eram as minhas prioridades e o que eu queria no espaço que ia escolher para mim”.

Três pilares principais: finanças, limpeza e alimentação

“O principal desafio de morar sozinho foi criar disciplina relacionada a estas 3 questões: financeira, limpeza e alimentação. Ter um espaço próprio carrega consigo a responsabilidade de se ter contas a pagar e prazos de vencimento a cumprir. Não é preciso dizer, portanto, que é necessário administrar a renda mensal para que os gastos fixos do apartamento, somados às despesas comuns do cotidiano, caibam no orçamento e ainda sobre algo para se construir uma reserva financeira”.

“Além disso, manter o apartamento limpo é essencial para se viver bem e trazer bem-estar para você e convidados. É possível contratar alguém para isso ou limpar você mesmo. Mas qualquer uma das duas opções requer disciplina, seja financeira ou de tempo. Não pode ter preguiça”.

“Em relação à alimentação, basicamente existem duas opções quando se mora sozinho: ou você aprende a cozinhar e come de maneira saudável ou você optará pelos aplicativos de entrega de comida. Esse segundo normalmente não é tão saudável e nada barato. Hoje, esse continua sendo o meu maior desafio dentre todos que citei”.

Susto na hora de mobiliar

“Tive algumas surpresas na hora de organizar tudo. Uma delas foi descobrir que mobiliar um apartamento pode ser mais caro do que se imagina. Normalmente, nos planejamos para os móveis principais, mas utensílios mais simples somam uma parcela significativa no final. Por isso é importante considerá-los e já colocar tudo na ponta do lápis para saber o que é possível ir adquirindo com o tempo e quando”.

“Viva simples”

Planejar, ordenar, priorizar, aproximar. Verbos que definem como Luis enxerga o que significa morar sozinho:

“Se eu pudesse dar dicas para quem está fazendo o mesmo, seriam as seguintes: Em primeiro lugar, planeje-se financeiramente. Saiba qual é a sua média de gastos mensais, some à estimativa de custos da moradia e veja se cabe no seu orçamento, com uma certa folga. Além disso, ordene, em uma lista, as principais características que você busca no novo apartamento e pesquise bem as opções, sem pressa. Aparecerão boas oportunidades, mas nem todas terão as características buscadas. Portanto, paciência”.

“Por fim, priorize coisas e viva simples. Pesquisar muito é importante, mas é muito difícil achar o apartamento perfeito. Por isso, se permita viver a experiência. O pior que pode acontecer é você ter que mudar ao final do período acordado. Ah, more sozinho, mas convide as pessoas próximas. Viver rodeado de boas companhias traz felicidade!”.

Arquivo Pessoal
O mineiro Luis Felipe viveu algumas surpresas, mas considerou transformador o movimento de morar sozinho (Foto: Arquivo Pessoal)

ALEXIA AMORIM DOS SANTOS

22 ANOS

BAIANA DE COARACI

Nova oportunidade de trabalho na cidade vizinha. Essa foi o principal motivo para Alexia bater asas em voo solo. Uma vaga de estágio no INSS fez a jovem arrumar as coisas e sair, no início de agosto deste ano, de Coaraci-BA para Itabuna-BA. A baiana já teve uma experiência anterior morando sozinha, mas conta que, dessa vez, está ainda mais apegada às coisas e pessoas da cidade natal.

“Já morei em Itabuna em 2019. Mas dessa vez está um pouco diferente. Muito difícil ficar longe fisicamente da minha família e amigos. E confesso de sinto falta até do meu crossfit. Mas essa é uma oportunidade que vinha visando há um tempo e estou muito confiante que dará certo”, explica.

Independência e maturidade conquistadas

“Morar sozinha, sobretudo em uma outra cidade, tem me despertado certa independência. Ter o meu canto, meu espaço quase que totalmente do meu jeito é ótimo. Com essa nova etapa, espero e sinto que evoluirei também na questão da maturidade”.

“O que mais tenho sentido e vou ainda sentir de dificuldade nessa adaptação é, certamente, a saudade das pessoas e dos lugares em Coaraci”.

Autoconhecimento e cuidado com a rotina

“Penso que, nesse pouco tempo sozinha, observei uma melhora no cuidado e na valorização do dinheiro. Além disso, um zelo muito maior com meu próprio espaço, uma vez que depende só de mim deixá-lo arrumado. A relação comigo mesma também melhora, pois não tem ninguém para ficar me cobrando coisas. Portanto, tenho mais autonomia e responsabilidade. Por fim, até a relação com a minha família melhorou”.

Por enquanto, sem sustos

“Não me planejei tanto assim para a mudança. Como já fazia um tempo que estava visando essa oportunidade de emprego, até fiz alguns planos de rotina de vida na minha cabeça. Mas tenho vivido cada etapa. Por enquanto, está sendo tranquilo. Até agora não enfrentei nenhuma grande dificuldade”.

“Se joga!”

Independente do que aconteça, você vai crescer. Esse é o pensamento de Alexia sobre a jornada de morar sozinha:

“Uma dica para quem está ou acabou de fazer esse movimento de mudança: se joga! Mesmo com medo de dar errado, de estar “sozinho”, às vezes em um lugar relativamente ou totalmente desconhecido, confie que, independente do que aconteça, isso vai fazer bem e trazer crescimento e conhecimento para a vida”.

Arquivo pessoal
A baiana Alexia tem uma dica para quem está pensando em morar sozinho: "se joga!"

JOÃO CARLOS MACIEL BARRETO

29 ANOS

FLUMINENSE DE ITAGUAÍ

Busca por independência e qualidade de vida. E duas mudanças de residência em datas muito próximas. Essa é a história do fluminense João Carlos. O publicitário saiu da casa dos pais, no Rio de Janeiro, em abril deste ano para morar sozinho. Por lá, ele ainda dividia quarto com o irmão. 

Alguns meses de uma nova experiência em um bairro ainda próximo da antiga residência ajudaram João a crescer profissional e pessoalmente. Mas, em pouco tempo, outra mudança. Uma nova oportunidade de trabalho bateu à porta. Dessa vez, na cidade de São Paulo. João arrumou as malas e partiu para a capital paulista em agosto. O “frio na barriga” agora é maior. Segundo ele, por assumir mais responsabilidades e ficar longe da família.

“Já queria mais independência há um tempo. No começo deste ano, mudei de emprego e resolvi que era hora de morar sozinho. Conseguiria ficar mais próximo do trabalho para ganhar qualidade de vida e seria possível dar mais liberdade para o meu irmão na casa dos meus pais. Nessa nova mudança, sinto o peso maior do que terei que assumir e, claro, um aperto no peito de ficar um pouco longe da família”, conta.

Planejamento e ânimo para organizar o novo espaço

“Consigo afirmar que planejei a minha mudança. Isso porque juntei dinheiro para ter uma reserva de segurança e só fechei contrato em um apartamento quando tive a certeza de que minhas finanças estavam organizadas a ponto de assumir essa responsabilidade. Depois disso, ao longo de 2020, fui comprando, aos poucos, algumas coisas que eu gostaria de ter em casa, como eletrodomésticos e decoração”.

“O maior desafio que enfrento na nova vida sozinho é em relação à minha organização e ânimo para as tarefas da casa. Se hoje, por exemplo, eu enrolo para lavar minhas roupas, não há quem faça por mim. Resultado: fico sem roupas para sair. Além disso, quando fico com preguiça de lavar a louça, o problema vem quando preciso cozinhar de novo. Por mais que eu tente não bagunçar a casa, sempre existem tarefas para fazer. Em tempos de home office, qualquer bagunça me irrita durante as horas de trabalho”.

Uma mudança seguida da outra

“Nesta segunda vez, a mudança é para outro estado. Morava em um bairro relativamente próximo de onde minha família e maioria dos amigos moram, no Rio de Janeiro. Eles me ajudaram bastante no primeiro processo, principalmente meu irmão. Meus amigos, por exemplo, me auxiliaram a escolher o apartamento e até na decoração. Minha mãe chegou a fazer um “chá de despedida” virtual para que pessoas próximas a mim pudessem fazer parte desse momento. Foi bem legal! Agora, nessa vinda para São Paulo, estou decidindo e resolvendo tudo sozinho”.

“Com certeza o que mais incomoda agora é a saudade da família. Eu morava na casa ao lado da minha avó. Todos os dias dava bom dia e boa noite para ela. Ainda vou toda semana visitá-la e ver meus pais, mas sinto falta de poder, por exemplo, almoçar com ela em um dia aleatório ou conseguir ouvir as histórias da infância dela”.

Mais liberdade e algumas surpresas

“O que estou vivenciando de mais positivo em morar sozinho é a liberdade de fazer tudo do meu jeito, na hora que quero. Hoje, também consigo produzir melhor quando trabalho em casa, tenho mais silêncio e concentração. Além disso, tenho muito mais privacidade para, por exemplo, trazer a namorada para passar um fim de semana comigo”.

“No que diz respeito às surpresas na mudança, confesso que tive algumas. Por mais que eu estivesse preparado, custos como alimentos, luz e gás estão me surpreendendo a cada mês. Se eu não me controlar e gastar com sabedoria, posso ficar no vermelho no final do mês”.

“Sempre tenha uma reserva”

Gastos inesperados sempre aparecem. Para João, a dica fundamental é não abrir mão de uma reserva:

“Crie planos de gastos e tenha uma reserva emergencial. Acredite: emergências acontecem o tempo todo! Tenha em mente que nem sempre você terá o melhor conforto e que o conforto custa caro. Você terá que fazer escolhas e abandonar muita coisa, mas no final a tranquilidade e paz de espírito sempre compensam”.

Arquivo Pessoal
O fluminense João acredita que a liberdade é um dos maiores benefícios de se morar sozinho (Foto: Arquivo Pessoal)

Alexandre Diniz

Repórter


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