Como o home office reforçou laços entre pais e filhos

Lucas Eduardo Soares

Publicado 05/ago5 min de leitura

Resumo

Necessidade do isolamento social fez com que novos hábitos fossem adotados dentro de casa

João Meirelles com os filhos Sara e Francisco (Acervo pessoal)
João e os filhos - Sara e Francisco (Acervo pessoal)

Era para ser apenas um período em casa. Não se esperava, porém, que o modelo de trabalho remoto durasse por tanto tempo e que, mesmo após a vacinação em massa, o regime de home office continuasse ainda em alta para muitos profissionais. É que cumprir o expediente diretamente de seu próprio endereço pode – e pôde – facilitar a vida em muitos aspectos, mas também consegue entregar aquilo que o dinheiro não paga: os laços familiares.

Sessões de cinema, auxílio nos deveres da escola e pinturas. Essas foram algumas das atividades constantes no dia a dia do publicitário João Meirelles, de 31 anos, que vive em Belo Horizonte (MG), e trabalhava como servidor público em uma secretaria estadual de Minas Gerais quando uma determinação de teletrabalho foi publicada pela pasta, ainda em março de 2020, como medida de controle da pandemia de Covid-19.

Com a presença dos filhos mais constante, já que Sara (10) e Francisco (5) também vivem com a mãe, adequou a sua nova rotina para entender as demandas que eles trariam e se fazer presente em um momento difícil. “Não achei difícil me ajustar à nova rotina. Mas tive que fazer adaptações, como o preparo do café da manhã, do almoço, o lanche da tarde, o jantar. Não foi um problema”, conta João.

Para organizar as atividades, o publicitário conta que saía de frente das telas ao longo do dia para ver se Sara precisava de algum auxílio no dever da escola. “Achava agradabilíssimo, porque é uma nova forma de me conectar e de ensinar, coisa que eu sentia muita falta”, lembra. Com Francisco, à época com 3 anos, as atividades lúdicas da creche promoviam momentos únicos em família com pinturas. “Começou a colorir e a se interessar mais por desenhos”, pontua.

Havia recompensas. “Se todos cumprissem suas tarefas, como arrumar o quarto e juntar os brinquedos, fazíamos uma sessão de cinema com pipoca e batata frita duas vezes por semana”, fala João. De acordo com ele, entre os títulos apreciados estavam episódios de Naruto, os clássicos da Disney e até a saga completa de Harry Potter.

Os filmes do jovem bruxo ainda carregam um significado especial. É que, além dos três, Larissa, irmã de João, acompanhava as obras. “Foi muito bonito, ela estava em um momento difícil, doente, enfermada. E aí criamos essa rotina que aproximava a família inteira. Sem romantizar a pandemia, acabou que alguns hábitos foram criados”, afirma o publicitário.

Novas rotinas

Ainda tímido antes da pandemia, o home office reinventou a forma de as famílias se relacionarem. É o que explica ao Inset a psicóloga na Imedato Consultas e Exames, Mônica Mafra. De acordo com ela, ser pai e mãe em trabalho remoto e conciliar todas as demandas laborais com as da vida familiar acabou se tornando um problema para muitos núcleos familiares. “O chamado ‘privilégio’ de poder trabalhar perto dos filhos e não precisar sair de casa passou a servir como desafio”, atesta.

E todos foram pegos de surpresa e tiveram que lidar com os problemas sem qualquer aviso. “A humanidade não estava preparada para uma pandemia. Viver a pandemia dentro das casas exigiu das famílias uma determinação e disciplina que muitas famílias não estavam preparadas para enfrentar”, salienta a psicóloga, lembrando que enquanto muitas relações foram transformadas para melhor, em outras o efeito foi contrário.

Esses últimos anos também foram desafiadores para o engenheiro civil e analista financeiro Eduardo Coelho, de 31 anos. Ele vive em Belo Horizonte (MG) com a filha Sofia, que hoje tem 5 anos. Pouco tempo antes da pandemia, chegou a vender sua empresa de engenharia e passou a trabalhar de forma autônoma no mercado financeiro. Ou seja: ao longo da pandemia, ele sempre trabalhou de casa. No fim das contas, bom para os dois.

“Essa mudança foi um pouco conturbada”, explica Eduardo. “Mas a Sofia é uma menina muito compreensiva e doce e me ajuda, apesar da pouca idade. Ela organiza suas coisas no guarda-roupas e, enquanto isso, temos nossos horários de brincadeiras ao longo do expediente trabalho”, diz o analista. No tempo em que o pai se compromete com as atividades do ofício, a filha segue fazendo suas atividades. Assistir TV e colorir estão em sua programação.

Aliás, na ponta do lápis está também o resultado positivo dessa companhia constante. “Passo bastante tempo com a Sofia e minha relação com ela só melhorou. Ela passou por um momento histórico, e estar perto dela nessas horas é muito importante para nós dois”, acrescenta o engenheiro.

Relações passaram por mudanças, diz psicóloga

Essa relação entre pai e filho também foi alterada. Com a pandemia, explica Mônica Mafra, muitos pais se viram em um momento de preocupação em ter que conciliar trabalho e parentalidade – o que sempre era visto como um papel exclusivo das mulheres. O momento de agora, porém, mostra que ocorreu uma necessidade de se reformular esse processo e dar aos pais novos poderes, além do financeiro.

“A pandemia trouxe a possibilidade de os pais participarem mais da vida dos filhos, consequentemente, abrindo um espaço para mais diálogo. Não podemos dizer que antes da pandemia os pais eram omissos. Contudo, esse tempo extra juntos possibilitou um diálogo mais aberto”, ressalta Mônica. Segundo ela, no imaginário comum, famílias são sempre felizes e o pai precisa “dar conta de todos”.


Citação
Acredito que os pais estão enfrentando muitos desafios, assumindo papéis que anteriormente apareciam como responsabilidade das mães, talvez por uma questão cultural. O fato é que o maior legado da pandemia nas relações entre pai e filhos foi o aprendizado. Muitas dificuldades foram e estão sendo vencidas. Eles se colocaram mais disponíveis para aprender como resolver situações de conflito. A rigidez deu lugar a dedicação e à flexibilização.”
Mônica Mafra, psicóloga na Imedato Consultas e Exames

Se para os pais é um desafio, para as crianças o legado é maior. Mônica explica que a participação mais constante do pai no dia a dia é uma oportunidade para ajudar a criar um repertório de lembranças familiares. Ela lembra que no passado recente as famílias carregavam a crença de que o papel mais importante do pai é o de prover o sustento do lar. “Com a pandemia, o verdadeiro papel do pai tem sido restaurado”, pondera.

“Ser pai é dar exemplo, é transmitir segurança, é estar ali na hora do choro. É ser duro quando necessário, é ensinar sobre limites, introduzir a lei, é ensinar através de exemplos o que é certo e o que é errado. A pandemia relembrou para muitas famílias a importância do pai”, finaliza a psicóloga.

Lucas Eduardo Soares

Repórter


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