‘Remédio forte e inócuo’: entidades pedem fim de aumentos da Selic

Lucas Eduardo Soares

Publicado 04/ago3 min de leitura

Resumo

Taxa básica de juros teve seu 12º aumento consecutivo nessa quarta-feira (3) e foi a 13,75%, maior número em quase 6 anos

Não deu outra. O Copom (Comitê de Política Monetária) seguiu o que havia indicado no último encontro e decidiu subir, nessa quarta-feira (3), a Selic em 0,5 ponto percentual. Com o novo aumento – o 12º consecutivo –, a taxa básica de juros passou para 13,75%, o maior em quase seis anos. No comunicado de divulgação, o Banco Central, porém, não fechou as portas para um novo aumento na próxima reunião marcada para setembro e provocou reação de entidades dos mais diversos setores.

Pressão adicional sobre alimentos. Essa é a avaliação de Fábio de Salles Meirelles, presidente da Faesp (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo). De acordo com ele, a Selic mais alta do que está agora pode fazer com que o preço da comida fique ainda mais alto. Na prévia da inflação, divulgada pelo IBGE, gasolina e energia elétrica evitaram um avanço mais agressivo do indicador, mas os alimentos continuavam caros para os brasileiros.

“Trata-se de um remédio forte e inócuo para tratar o agravamento do IPCA, cujas causas são o encarecimento dos insumos, energia e petróleo e retenção de estoques em vários países, num cenário ainda impactado pela pandemia e pela guerra entre Rússia e Ucrânia”, analisa Meirelles. O cenário externo foi um dos motivos pela manutenção da alta da taxa de juros pelo Copom.

O presidente da Faesp pondera ainda que a inflação do Brasil não é um fenômeno de demanda, contra qual juros altos são considerados eficazes, mas sim de oferta. “Para esta segunda causa, não adianta ficar aumentando a Selic. O Brasil está dando dose exagerada de um remédio tóxico para sintomas errados”, afirma o dirigente. Veja a variação da Selic desde 2021:

Economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória também comentou o resultado do Copom em um comunicado. No texto, ela lembra que o comitê alongou o horizonte de política monetária para o próximo ano, sem levar em conta os efeitos das medidas tributárias. Rafaela acredita que “com expectativa de inflação mais longa em 3,5%, já bem próxima do centro da meta, novas altas não seriam necessárias”.


Citação
Esperamos que a Selic termine esse ciclo em 13,75%. Apesar das incertezas no cenário fiscal para 2023, a redução da atividade, resultado da significativa elevação da Selic, deve exercer maior impacto no processo de desinflação, que contará também com o cenário externo de normalização da oferta e demanda global também em queda. Alongar o horizonte de política monetária é importante para evitar altas excessivas que podem impactar ainda mais negativamente a atividade e o emprego.”
Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter

De olho nas datas (e no futuro)

O aumento da taxa básica de juros influencia todos os brasileiros, de uma forma ou de outra. Utilizada como um “remédio” contra a inflação, a Selic é responsável por balizar todos os indicadores financeiros, como as dos empréstimos, dos financiamentos e das aplicações financeiras. Ou seja, ela força um pé no freio. Sendo assim, uma decisão pode afetar e muito brasileiros de Norte a Sul. Aqui no Inset nós mostramos como as prestações ficam mais caras com o aumento.

Dessa forma, o presidente da CDL/BH (Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte), Marcelo de Souza e Silva, acredita que o impacto da elevação será diretamente sentido pelos setores de comércio e serviços, já que o consumo é desestimulado e o crédito, tanto para consumidor quanto para lojista, se torna mais caro. Para ele, assim como para os outros, a expectativa é que esse seja o último aumento do ano.

“Estamos nos aproximando das principais datas para o comércio como Dia dos Pais, Dia das Crianças, Black Friday e Natal. Um ambiente inflacionário, com alto custo de crédito e baixo poder de compra das famílias, poderá ter um efeito negativo no resultado das vendas e, por consequência, na geração de emprego e renda”, afirma Marcelo. Ele ainda cobra um ambiente econômico seguro e com perspectivas positivas para 2023.

Presidente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), Fernando Valente Pimentel apoia o fim do ciclo de subidas. “Não é hora de apertar mais o torniquete sobre os investimentos, a produção e o consumo”, diz. Segundo Pimentel, nesse momento o ideal é analisar de modo criterioso os efeitos nas taxas inflacionárias.

Ele ainda destaca a necessidade de dar prosseguimento à agenda de reformas para que haja a redução do custo Brasil, que afeta a competitividade mundial da indústria nacional e torna o ambiente de negócios adverso. “Agora, urge voltar a estimular o consumo e o investimento, para que o país possa ter os principais fundamentos em ordem, o que é muito importante para o progresso de médio e de longo prazo. É preciso retomar o crescimento econômico”, analisa.


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