Entregadores: ‘Medo era levar o vírus para casa’

Lucas Eduardo Soares

Publicado 22/out4 min de leitura

Resumo

Trabalhadores essenciais, pelo menos na visão de muitos, profissionais de delivery relatam medo do trabalho durante a pandemia

No momento em que o mundo ficava – ou tentava ficar – dentro de casa para evitar o contágio pelo novo coronavírus no Brasil, as ruas, que até então se mostravam abandonadas, viam seu movimento mudar. Saíram de cena os carros e, consequentemente, os grandes engarrafamentos.

Depois, ficaram mais visíveis, e vulneráveis, aqueles que, sobre duas rodas, continuaram trabalhando para que muitos não precisassem se expor ao risco de ficar contaminado. Mesmo quando tudo ao redor amedrontava.

Foto: Arquivo pessoal
Funcionário de uma pizzaria manauara desde 2015, Cristiano Nery teve receio de ser mais um dos que tinham diagnóstico positivo para a doença

“Meu medo foi contrair a Covid-19, porque foi muito crítico e afetou bastante toda a cidade. E, infelizmente, deu no que deu e foi espalhado para o mundo todo”, comenta Nery. A variante P.1, que ganhou o nome da capital do Amazonas, foi registrada poucos meses depois em mais de 50 países.

Nas ruas, além de outros companheiros, ele lembra que via tristeza, deserto, e pessoas muito assustadas. No trabalho, chegou a fazer entrega para pessoas contaminadas, que prezavam pela distância na hora de receber as pizzas.

Já em casa, onde mora com o filho de 22 anos, predominavam os cuidados, e nenhum dos dois teve resultado positivo para a doença, ao contrário de vizinhos, que chegaram a morrer em meio à alta de casos na cidade.


Citação
Manaus passou por um mau bocado
Cristiano Nery, entregador

Foto: Arquivo pessoal
Guilherme Mendes diz que sempre tomou cuidado na hora de fazer as entregas para não levar o vírus para casa

“Meu maior medo era trazer para dentro de casa”

Já na capital de Minas Gerais, Belo Horizonte, o jovem Guilherme Mendes, de 23 anos, não sabia que precisaria ir para a rua enquanto o mundo todo dava preferência para as atividades realizadas dentro de casa.

Viu seu contrato de trabalho vencer em março de 2020, mês em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) confirmou que o avanço da Covid-19 havia se tornado uma pandemia, e não teve dúvida: pegou sua moto, seu cadastro nos aplicativos de delivery e foi para a rua, apesar do temor.

O receio, lembra ele, era de, por um milésimo de segundo, ser contaminado e consequentemente contaminar a avó, de 93 anos, o tio, de 58, e a mãe, de 50, que tem cerca de 70% dos pulmões comprometidos. Ele, inclusive, é um dos cuidadores da avó, que requer necessidades especiais para atividades do dia a dia.

“Eu chegava e tirava toda a roupa do lado de fora e ia direto para o banheiro tomar banho. Não abraçava, não beijava, não deixava que se deitassem na minha cama. E nem eu, claro, nas delas”, conta Guilherme. Seu maior medo era levar esse vírus para dentro de casa.

Para isso, tomava os cuidados na hora de fazer as entregas e sempre usando máscara e álcool gel.


Citação
Já cheguei e a pessoa me disse que estava com suspeita. Mas tinha que pegar dinheiro ou sacola... Eu fazia de tudo para não dar mole e não deixar passar
Guilherme Mendes, entregador

Hoje, com a família toda vacinada, o trabalho fica mais tranquilo, mas os cuidados devem ser seguidos. “Se alguma delas pega corona, eu não sei nem o que pode acontecer”.

Lucas Eduardo Soares

Repórter


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