É possível zerar a taxa de desemprego de um país?

Célio Ribeiro, repórter do Inset

Célio Ribeiro

Publicado 04/ago5 min de leitura

Resumo

Conheça o conceito de pleno emprego e quais medidas poderiam ser tomadas por um país para oferecer trabalho a todos aqueles que desejam trabalhar  

O Brasil registrou, em junho, a menor taxa de desemprego dos últimos sete anos, segundo o IBGE. Apesar de o índice permanecer em um patamar alto, de 9,3%, a notícia é comemorada por muitas pessoas, já que, durante seis anos e dois meses, o país conviveu com uma taxa de desemprego na casa dos dois dígitos.

Após fechar 2014 com a desocupação em 4,3%, o menor índice da história do país (pela metodologia da Pesquisa Mensal de Empregos), a taxa começou a subir, influenciada pela crise econômica e política iniciada no mesmo ano. Entre altas e baixas, o índice "se acomodou" na faixa dos 11% e chegou a se aproximar, por duas vezes, dos 15%.

Apesar de ter ficado abaixo dos 10% nos últimos dois meses, segundo a Pnad Contínua do IBGE, o alívio na taxa de desocupação ainda não alcançou os mais de 10 milhões de pessoas que seguem sem um trabalho nem os 4,3 milhões de desalentados, pessoas que podem trabalhar, mas desistiram de procurar emprego.

O que é pleno emprego?

Trabalho para todos que querem trabalhar. Parece utópico, mas é mais ou menos isso o que prega o pleno emprego, conceito que indica uma situação em que toda a força de trabalho de um país encontra oportunidades fácil e rapidamente. Em momentos assim, a economia não registraria desemprego involuntário (cíclico) nem baixa demanda.

Mas trabalho para todos não significa, na prática, desemprego zero. Muitos economistas trabalham com um "número mágico" do pleno emprego, que seria um índice entre 4% e 6%. Essa variação é, inclusive, a estimativa do pleno emprego definida em 1999 pela OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Alguns, como o economista William Beveridge, chegaram a propor taxas ainda menores.

Se olharmos só os números, alguns países estão em situação bem tranquila. Catar, Camboja e Nigéria são algumas das nações com os menores índices de desocupação do mundo, mas esses números podem esconder vários detalhes preciosos: trabalho temporário (o Catar vai sediar a Copa do Mundo neste ano), empregos informais, salários insuficientes ou até mesmo manipulação de dados.

Daniel Conceição, professor de Economia do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, alerta que a queda na taxa de desemprego aqui no Brasil pode estar fazendo com que muitas pessoas subestimem o tamanho do problema que o país enfrenta e vai enfrentar nos próximos anos.

"Quando fazemos pesquisa de desemprego, não perguntamos sobre qualidade ou estabilidade. Nos últimos anos tivemos transformações, muitos empregos deixaram de ser formais para ser PJ. Esse sujeito vai se declarar como ocupado. Podemos estar subestimando e jogando no mesmo pacotão os subempregados, parcialmente empregados, os que fazem bicos e os desalentados."

Gráfico sobre desemprego no mundo
Países da África, Ásia e Oriente Médio reúnem as maiores e menores taxas de desemprego do mundo (Foto: Michelle Freitas/Inset)

Desemprego 0%: é possível?

Teoricamente, é possível. Segundo Daniel Conceição, que também é presidente do IFFD (Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento), a oferta de trabalho para todos os cidadãos que desejam trabalhar é uma ação que pode ser tomada pelo governo federal.

"Em uma economia capitalista, todo emprego é gerado por oportunidades de lucrar. Isso pode ser resolvido se alguém puder empregar sem lucrar. Quem pode fazer isso é justamente o governo, que tem capacidade de fazer pagamentos em sua moeda e, assim, remunerar quem quiser trabalhar para ele."

Pode parecer estranho, mas essa capacidade de fazer pagamentos não é simplesmente "ligar a impressora" do Banco Central, ação temida por muitos economistas. Conceição esclarece que essa medida só poderia ser tomada após a Economia e outras pastas realizarem planejamentos para entender os limites da máquina pública. E, para acalmar os mais temerosos, ele apresenta um exemplo bem recente: o Auxílio Emergencial.

"É preciso fazer o cálculo para entender o quanto cabe, o quanto é possível pagar sem aumentar a inflação. O Auxílio Emergencial é um bom exemplo de que o país pode tomar essas medidas sem quebrar. O problema é a falta de planejamento, o valor foi definido meio que aleatoriamente. Inicialmente eram R$ 200, se chegou a R$ 600 após uma pressão política. Não pode ser assim, precisamos valorizar o planejamento para fortalecer a economia."

E, mesmo que a taxa de desemprego chegasse a 0%, isso não significaria que todos os habitantes do país estariam trabalhando, já que algumas pessoas sem ocupação não são consideradas desempregadas, como um universitário que dedica seu tempo somente aos estudos ou uma empreendedora que possui seu próprio negócio.

Desafios para o Brasil

Com uma queda de mais de cinco pontos percentuais em pouco mais de um ano, alguns especialistas preveem que o índice deve ficar ainda mais perto dos 9% até o fim deste ano. Conceição afirma que, após o choque depressivo da economia durante a pandemia de Covid-19, a recuperação nos índices é quase natural. Mas a continuidade disso tudo depende do que será feito a partir de janeiro de 2023.

"A economia saiu de um buraco muito grande graças a intervenções que injetaram dinheiro na economia. As pessoas voltaram a trabalhar, houve um boom na economia e o desemprego naturalmente caiu. Agora há uma nova rodada de estímulos que vai manter a economia aquecida. O problema é quando isso acabar. Se essas políticas acabarem, o choque financeiro no ano que vem será gigantesco e a recuperação pode se inverter."

Célio Ribeiro, repórter do Inset

Célio Ribeiro

Repórter


Compartilhe essa notícia


Esse conteúdo foi útil?

Siga o Inset

Conheça o Inter

De banco digital para plataforma de serviços integrados: o Inter se reinventou e cria o que simplifica a vida das pessoas.