Robô do Pix: golpe antigo usa novo nome para fazer vítimas

Redação Inset

Publicado 10/mai7 min de leitura

Resumo

Termo é usado na venda de sistema de investimentos que promete multiplicar valor aplicado ou fazer comentários automáticos em sorteios no Instagram; especialista vê semelhanças com a famosa "Pirâmide Financeira"

Célio Ribeiro - Dinheiro. Essa palavra, ou melhor, o conceito por trás dela, move o mundo há milhares de anos. E nem adianta negar: não importa se temos muito ou pouco, a gente sempre quer mais. Nessa busca desenfreada pelo "money, money, money", cada um busca uma alternativa diferente: dois empregos, "bicos" nas horas vagas, investimentos em renda fixa, ações, day trade...enfim, opção é que não falta. Mas, mesmo com tantos alertas na internet, muitas pessoas insistem em procurar o caminho supostamente mais fácil, mas igualmente suspeito. 

Imagine você receber uma oferta de investimento capaz de duplicar ou triplicar o valor aplicado em dias ou até mesmo horas. O melhor de tudo: você nem precisa fazer esforço, só fazer o aporte inicial e esperar o dinheiro entrar na conta. Ah, e você ainda pode maximizar seus ganhos se indicar mais pessoas para entrarem no investimento. Bom demais para ser verdade né? 

Essa descrição pode te fazer lembrar de vários esquemas de pirâmide financeira que fizeram sucesso (e vítimas) nas últimas décadas. Mas na verdade é sobre o "Robô do Pix", um "novo sistema" que promete ajudar as pessoas a lucrar na internet e leva o nome do meio de pagamento lançado em 2020 pelo Banco Central. Existem pelo menos duas versões do "Robô do Pix" na internet, todas elas com fortes indícios de serem fraudulentos. 

O que é o Robô do Pix? 

Como dissemos, este nome é usado em dois esquemas diferentes que são amplamente divulgados na internet, incluindo anúncios pagos no Google, YouTube, Facebook e Twitter. São eles: 

Investimentos em criptomoedas

Esse é o meu favorito. Nesta modalidade, o cliente paga um valor para ter acesso a um robô, que fica responsável por administrar os investimentos do cliente em criptomoedas. Os anúncios prometem um lucro quatro vezes maior do que o aplicado em apenas 30 dias, podendo ser multiplicado por 12 a depender da quantidade de pessoas que o cliente convidar para o programa.  

O grande problema é que o sistema não é transparente e o investidor não recebe informações concretas de como o seu dinheiro está sendo aplicado. A principal plataforma utilizada, chamada de Data AI, saiu do ar no fim de abril, o que causou uma onda de notificações contra o sistema no Reclame Aqui. Nas publicações, internautas afirmam ter aplicado R$ 600, R$ 1.000 e até R$ 15 mil na plataforma e, agora, estão impossibilitados de movimentar ou retirar o valor. Muitos afirmam ter registrado boletim de ocorrência contra os responsáveis, mas, aparentemente, não receberam nenhum retorno mesmo assim. 

Com tantas pessoas sendo vítimas de um sistema tão curioso como esse, o "Robô do Pix" acabou se tornando um meme nas redes sociais. Além da variação bodybuilder do "Robô Musculoso do Pix", já deram as caras o "Urubu do Pix", a "Arara do Pix" até a "Capivara do Pix".  

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Comentários automáticos

Conhecido como "Robô dos Comentários", esse sistema promete fazer comentários automaticamente em sorteios no Instagram para aumentar as chances do cliente ser premiado. Assim como o anterior, o processo é simples e obscuro: a pessoa adquire o aplicativo, loga no seu perfil na rede social e informa quais sorteios quer participar. Depois, o robô fica por conta de comentar as publicações 24 horas por dia. 

Assim como o Robô das Criptos, esse também é alvo de dezenas de reclamações na internet, quase todos eles afirmando que os comentários não foram feitos e que o vendedor do sistema sumiu após o cliente cobrar explicações. O valor pago pelas vítimas chegou a R$ 300. As poucas empresas que responderam as notificações no Reclame Aqui usaram quase sempre a mesma resposta: seu robô não foi comprado com a nossa empresa. 

Poucas empresas respondem às reclamações. Aquelas que retornam quase sempre usam o mesmo texto (Foto: Reprodução/Reclame Aqui)

Afinal, o Robô do Pix é um golpe? 

Tudo indica que sim, é o que afirma Caio Lopes, co-fundador da Mobile2you e Diretor de Canais Digitais da Dimensa, líder em tecnologia e infraestrutura para instituições financeiras. Para o especialista, o sistema de comentários automáticos é algo "tecnicamente factível", mas envolve não apenas o custo da compra do "robô" quanto a permissão do acesso a seu perfil pessoal no Instagram. Já no caso dos investimentos em criptomoedas, o recado dado é: "ponha o pé no chão". 

"Quando falamos sobre retornos acima do mercado, temos um indicativo muito forte de que podemos estar presenciando um golpe, afinal são oferecidos lucros inexistentes em quaisquer investimentos hoje em dia. Se tomarmos por exemplo o maior investidor profissional do mundo, Warren Buffet, sua carteira de investimentos rendeu, em média, 20% nos últimos anos. E ele tem acesso a condições diferenciadas, grande equipe e muito capital. Dificilmente conseguiríamos condições tão vantajosas, onde quer que fossem oferecidas." 

Robô do Pix é pirâmide? Pirâmide é golpe? 

Nem tudo que reluz é ouro. E nem tudo que parece pirâmide financeira é golpe. Lopes explica que existe uma diferença entre "Marketing Multinível" e "Pirâmide Financeira". O primeiro, legal e muito usado por marcas de cosméticos e saúde, é um sistema que gera ganhos baseados no trabalho das pessoas convidadas, mas que sempre está relacionado a venda de um produto real. Para maximizar o lucro, é preciso ampliar a rede de vendas e, é claro, o volume de produtos vendidos. Entre as empresas famosas que usam esse sistema no Brasil, estão Herbalife, Hinode e Mary Kay. 

Na "Pirâmide Financeira", os ganhos também são ampliados com a entrada de novos convidados, mas há uma diferença decisiva: não existe produto para ser vendido. Os ganhos só são gerados quando uma nova pessoa entra no esquema, paga o valor inicial e esse dinheiro é redistribuído entre os outros membros. Ou seja, quando a entrada de novos convidados se torna escassa, o dinheiro para de fluir e a pirâmide "quebra". O exemplo mais famoso de "Pirâmide Financeira" no país é a Telexfree, que fez pelo menos 2 milhões de vítimas no Brasil. Algumas pessoas chegaram a investir R$ 500 mil no esquema. A grande maioria delas ainda não recebeu seu dinheiro de volta quase 10 anos após a fraude ser revelada pela imprensa.  

Como não cair em golpes? 

Dá para perceber que muitos dos "novos" golpes aplicados por aí são apenas atualizações de fraudes antigas, repaginadas com termos mais modernos. Sendo assim, por que tantas pessoas ainda são vítimas desses esquemas? A falta de informação é uma explicação, mas, para o especialista Caio Lopes, a crise econômica vivida pelo país pode levar os cidadãos a procurarem fontes alternativas e supostamente simplificadas de renda. 

"Infelizmente vivemos em um país bastante desigual socioeconomicamente, agravado ainda mais durante a pandemia da COVID-19, na qual diversas famílias tiveram uma queda abrupta de renda. Uma oportunidade de obter rendimentos de forma fácil torna-se muita atrativa na atual conjuntura. Por isso é preciso sempre ter muito cuidado e avaliar qualquer oportunidade de 'investimento'." 

Se você é leitor do Inset, já sabe muito bem como não cair em "furadas" e como investir seu dinheiro da forma correta e segura. Mas como conselho nunca é demais, fique com essas três dicas do especialista para você não cair nesse tipo de esquema. 

  • Tenha um pé atrás: "primeiramente, precisamos ser muito céticos a respeito dos lucros e rendimentos. Veja, não existe um retorno estratosférico e multiplicação de dinheiro, assim não devemos nunca agir por impulso." 
  • Informe-se: "procure também pesquisar, entender sobre o "esquema" que é oferecido, buscar notícias, sites de reclamações. Todos esses dados também são indicativos importantes." 
  • Confirme a origem: "por fim, mas não menos importante, podemos verificar sempre no site da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), as empresas autorizadas a trabalhar com investimentos, assim podemos evitar aplicar valores em "esquemas" não autorizados," 

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