Por que a poupança ainda é tão procurada?

Letícia Almeida

Publicado 29/set8 min de leitura

Resumo

Mesmo sendo considerada a pior aplicação, a alternativa é utilizada por 30 milhões de pessoas

O dinheiro que sobra no fim do mês ou aquele previamente reservado para as economias tem um destino certo na mão de 29% da população: a poupança. A porcentagem representa 30 milhões de pessoas das classes A, B e C que usam o produto financeiro como forma de aplicação. Os especialistas alertam que a caderneta não é a melhor opção de investimento, mas, ainda assim, é a preferida dos brasileiros, independentemente da idade ou da classe social.

Isso é o que aponta a pesquisa "Raio-X do investidor brasileiro", realizada pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) em parceria com o Datafolha. De acordo com o estudo, pela primeira vez em quatro anos, a poupança – conhecida por 89% da população – perdeu espaço na preferência, com queda de oito pontos percentuais em relação a 2019. O conhecimento sobre outros investimentos alcançou marcas inéditas, como é o caso das ações (82%) e dos fundos (64%). Mesmo assim, a caderneta mantém o favoritismo.

Segundo o Banco Central, os brasileiros possuem atualmente R$ 1,030 trilhão investidos na caderneta e, só em junho de 2021, houve entrada líquida de quase R$ 7,1 bilhões. Pela regra nova, estabelecida em 2012, a aplicação rende 70% da taxa Selic, definida em 6,25% (valor de setembro de 2021), e é encarada como um mau investimento por ser pouco rentável, fator também impactado pela regra de retirada do dinheiro – o aniversário da poupança.

A poupança paga a rentabilidade depois que você completa um mês de aniversário, então eu só vou ganhar se esperar completar 30 dias. Quando o cliente para pra ver, ele percebe que poderia ter tido uma rentabilidade muito superior em outras aplicações, que têm a mesma garantia e o mesmo nível de risco", explica Luiza Waeger, advisor de investimentos do Inter.

Para a especialista, a educação financeira precária e a aversão muito grande a riscos, principalmente por pessoas que passaram por crises graves de dinheiro, contribuem para que a caderneta continue sendo a principal escolha dos brasileiros.

Segurança similar à de outras aplicações

Segundo o coordenador do MBA de Gestão Financeira da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Ricardo Teixeira, a facilidade e a segurança da poupança fazem com que a aplicação seja tão usual. "Isso [investir na poupança] é de certa forma enraizado porque ela oferece uma facilidade muito grande para abrir a conta e movimentar. Ela tem uma lógica que todo mundo mais ou menos conhece, dá segurança, não tem muita burocracia e nem muita dificuldade", analisa.

A facilidade, a confiança e a comodidade são os quesitos em que a poupança é mais bem avaliada em relação aos motivos que levam à escolha de um produto financeiro, de acordo com o levantamento da Anbima. Esses critérios são determinantes para quem sempre apostou na aplicação, como Rosângela Cavalieri, 60 anos. "Apesar de saber da baixa rentabilidade da poupança, considero que é uma forma segura de guardar dinheiro. E não há limite de valor para a abertura da conta, por isso, abre-se várias facilmente", comenta.

Embora não abra mão da poupança por conta da confiança e da ausência de taxação, a bancária também recorre a outros métodos, como os fundos de investimentos e a bolsa de valores. "Considero importante a diversificação", pondera.

Já Thais Costa, 26, usa a poupança como única aplicação e, mesmo não achando uma boa escolha, opta por ela por conta da comodidade. "Sempre guardei dinheiro na poupança, desde que ganhei meu primeiro salário. Não tenho um perfil de investir, tenho um pouco de preguiça de correr atrás disso e não confio em investir em qualquer coisa", conta a analista de marketing de produto. 

A jovem confessa não acompanhar o rendimento da caderneta por saber que é baixo, e recorre à aplicação apenas para ter onde guardar o dinheiro, sem comprometê-lo com outros gastos.

O superintendente de Comunicação, Certificação e Educação de Investidores da Anbima, Marcelo Billi, ressalta que há outras opções de investimento fáceis e seguras, mas que, diferentemente da poupança, não são percebidas dessa forma. "Este gap de percepção pode estar afastando os investidores de alternativas adequadas, boas e mais rentáveis para eles. Ou seja, as pessoas estão deixando dinheiro na mesa", afirma.


Citação
Sempre guardei dinheiro na poupança, desde que ganhei meu primeiro salário. Não tenho um perfil de investir, tenho um pouco de preguiça de correr atrás disso e não confio em investir em qualquer coisa
Thais Costa

A não-incidência de imposto da poupança, por exemplo – percebida como uma facilidade –, na prática não é uma vantagem tão grande, como explica o superintendente. "Mesmo isenta, a poupança nova ainda perde em rentabilidade para a maioria dos outros investimentos, quando considerados os rendimentos líquidos depois da tributação. E quanto mais tempo o dinheiro estiver investido, essa diferença só aumenta, pois a tributação dos investimentos em renda fixa cai ao longo do tempo".

Em relação à confiança, há outros produtos financeiros que são cobertos pelo mesmo fundo que a protege a caderneta, o FGC (Fundo Garantidor de Crédito). Ele é a associação responsável por assegurar o repasse de 250 mil reais ao investidor caso a instituição financeira em que o dinheiro está aplicado quebre.

"O Fundo Garantidor de Crédito cobre, nas mesmas condições, tanto a poupança quanto outras aplicações. Investimentos como CDBs (Certificados de Depósito Bancário), LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e LCA" (Letra de Crédito de Agronegócio) estão no mesmo nível de segurança da caderneta", esclarece a advisor Luiza Waeger.

Afinal, a poupança não é boa para ninguém?

Para a advisor no Inter, a caderneta é uma escolha ruim em qualquer circunstância. "A poupança não cabe em nenhum tipo de perfil. O cliente que procura esse tipo de investimento é ultra conversador, mas ele também cabe em outras opções mais rentáveis", assegura.

A sugestão da especialista para quem quer começar a variar as aplicações é avaliar quando pretende resgatar o dinheiro. "O CDB é mais indicado para ser a reserva de emergência, que você quer ter aquele dinheiro para usar a qualquer momento. Se o cliente tem um dinheiro que quer investir e não tem pretensão de usar, pode partir para LCI e LCA de prazos mais longos, para ter retornos mais significativos", explica.

Já na avaliação do superintendente da Anbima, há ressalvas: para quem tem a poupança antiga, que a rentabilidade é de 0,5% ao mês mais a taxa referencial, a caderneta vale a pena. "É um ótimo rendimento para um investimento com baixo risco. Esse retorno acumulado ao ano dá um total de 6,17%. Se considerarmos atualmente os juros básicos da economia, a rentabilidade da poupança antiga ainda é uma boa vantagem". A regra antiga vale somente para depósitos anteriores ao dia 4 de maio de 2012.

O coordenador do MBA de Gestão Financeira da FGV, Ricardo Teixeira, também pondera que em alguns casos, ela pode ser uma alternativa, como para quem aplica pequenas quantias. "Quem é pequeno poupador, que vai botar o dinheiro e esquecer, fazendo aplicações mensais, é bem melhor do que não guardar nada e é melhor do que guardar sem correção [monetária]".

É o que acontece com a dona de casa Lucimar Amorim, 51 anos. "Guardar na poupança é a forma que eu tenho pra não guardar em casa. Coloco pouco dinheiro, deixo lá só para guardar mesmo, daí, quando preciso, vou na lotérica e saco". Ela tem a conta desde os 15 anos de idade e confessa não conhecer outras formas de investimento.

Aqueles que pensam em realmente investir e não apenas em guardar o dinheiro, podem começar com produtos considerados conversadores, atrativos para usuários de poupança, aconselha Ricardo. "Os títulos, tanto Tesouro Direto como LCI e LCA, são investimentos interessantes, sempre respeitando o limite do Fundo Garantidor de Crédito".

Para dar o primeiro passo, é importante se planejar, avaliar os objetivos do dinheiro e estabelecer quando pretende resgatá-lo. A tecnologia também pode ser uma aliada nesse processo, afinal, com uma conta digital já é possível acessar produtos financeiros, movimentar o dinheiro e começar a investir.

Letícia Almeida

Repórter


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