O que você deixou de fazer e de comprar por causa da inflação?

Izabella Souza

Publicado 10/mai7 min de leitura

Resumo

Pesquisa revela como os brasileiros têm se adaptado diante de preços tão altos

Pois é: tá tudo caro. E mesmo assim, os preços não param de subir. Como o Inset mostrou na matéria de produtos que mais encareceram em um ano, a inflação, que é a alta generalizada e contínua dos preços de bens e serviços, segue avançando em ritmo muito mais acelerado do que a população consegue acompanhar.

E para sobreviver em meio a tantos aumentos, o jeito encontrado pelos brasileiros é abrir mão de certos itens e hábitos que, antes, faziam parte da rotina doméstica.

Nas compras do mês no supermercado, por exemplo, 54% das pessoas reduziram a quantidade ou o volume de itens comprados; 51% deixaram de levar certos produtos e 44% substituíram algumas marcas ou cortes de carne por alternativas mais baratas.

Os dados são do levantamento “O Bolso do Brasileiro - 2022” da Hibou, empresa especializada em pesquisa e monitoramento de mercado e consumo. Realizada com duas mil pessoas entre os dias 24 e 26 de abril, a pesquisa mostrou que, entre os gastos rotineiros que mais têm causado preocupação estão combustíveis (63%), carne (55%), itens da cesta básica (34%), medicamentos (30%), legumes e verduras em geral (26%) e plano de saúde (23%).

“O brasileiro dá sempre o seu jeitinho, mas com a instabilidade econômica pós-pandemia, o jeito é aprender a apertar o cinto e a segurar o bolso. De acordo com este comportamento, observamos que o consumidor está comprando menos itens e, das compras realizadas, está reduzindo também o número de volumes”, observa Ligia Mello, coordenadora da pesquisa e sócia da Hibou.

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É o que tem feito a autônoma Amanda Ferreira, de 24 anos. Morando sozinha em Belo Horizonte (MG) ela conta que costumava passar a maior parte do mês com R$ 200, o que não tem acontecido desde o final de 2021, quando parou para analisar seus gastos e percebeu que precisava fazer alguns reajustes.

“Minha última compra no supermercado deu R$ 390 para duas semanas. Gostava de comprar frutas e verduras, sobremesas tipo iogurte e muçarela para fazer lanches. E se o preço do hortifruti, que é essenciais para manter a saúde saindo de uma pandemia, está exorbitante, imagine o resto. Reparei que, para economizar, só consumindo mais industrializados e enlatados, e isso é péssimo para a saúde”, conta.

Por causa dos preços, Amanda tem focado suas compras em ítens básicos como arroz, feijão e apenas um tipo de carne. Na hora de selecionar os legumes, apenas uma ou duas unidades de cada vão para o carrinho.

Hábitos também tiveram que ficar para trás

Além das compras, alguns hábitos também precisaram ser alterados ou suspensos por causa da alta generalizada dos preços. “Eu fazia tudo de Uber. Agora, voltei a andar mais de ônibus. Também não vou ao cinema há muito tempo. O salão de beleza é a única coisa que mantenho para o meu bem-estar”, diz Amanda.

E ela não é, nem de longe, um caso isolado. O levantamento da Hibou mostrou que muitos brasileiros tiveram que abrir mão de uma série de coisas para tentar manter as contas em dia:

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Metade dos brasileiros tem contas atrasadas

Ainda segundo o levantamento, os brasileiros estão atrasando mais o pagamento de suas contas. Em 2020, 37% da população estava com pendências financeiras. Em 2021 o número foi para 44%; e agora em 2022, para 48%. Atualmente, três em cada 10 pessoas (33%) estão com contas básicas em atraso, como água, luz, telefone e gás. Um aumento de 16% em comparação a 2021.

Além disso, 49% dos brasileiros estão com alguma fatura de cartão de crédito em aberto - aumento de 4% em relação ao ano anterior. Os boletos em geral vêm em segundo lugar, e ainda não foram pagos por 34% das pessoas. Neste quesito houve diminuição em 6 pontos percentuais em comparação a 2021.

Os brasileiros também alegam pendências com cheque especial (20%); parcela de empréstimo (17%); IPTU e IPVA (16%, cada); parcela de algum financiamento (14%); condomínio (7%); aluguel e escola (4%, cada).

“Infelizmente a estatística negativa ainda supera as positivas. Muitas pessoas perderam o emprego e as famílias precisaram se reinventar para conseguir fechar a conta no final do mês. Pelos números, vemos que o brasileiro pode estar ampliando a dívida com o cartão de crédito para manter os boletos em dia”, comenta a coordenadora da pesquisa.

Renda familiar abalada e socorro em empréstimos

E por falar em emprego, os dados do levantamento também mostram que, em análise sobre o ano de 2022 até o momento, 27% dos brasileiros tiveram redução na renda doméstica, na contramão de 8% que conseguiram aumentar a renda familiar. Para 22% não foi notado impacto, mesmo com a pandemia.

As seguintes situações também foram relatadas: um integrante da família perdeu o emprego (13%); alguém em casa tem feito “bico” em outra área para ajudar na renda (10%); foi preciso vender alguns pertences para se manter nesse período (6%); alguém em casa fechou ou desativou seu negócio (5%); a família está empreendendo com produção caseira para pagar as contas (4%); foi preciso mudar de casa para diminuir custos em aluguel (4%).

Outra saída para conseguir dinheiro foi pegar dinheiro emprestado: 41% dos entrevistados procuraram por empréstimos nos últimos 12 meses (em 2021 foram 32%). Destes, 47% procuraram os bancos como primeira opção, mesmo que não tenham concluído o acordo.

Outro ponto interessante do levantamento é que os entrevistados se mostraram desconfiados sobre a relação da inflação com a alta de preços sentidos nos mercados e nos postos de combustíveis. A grande maioria (84%) não confia nos dados oficiais e acredita que a inflação seja maior do que a divulgada oficialmente. Outros 16% acreditam que é, sim, a mesma, e 1% disse acreditar ser menor.

A pesquisa “O Bolso do Brasileiro - 2022” foi desenvolvida pela Hibou por abordagem digital com 2000 entrevistados de todo o Brasil, no período de 24 a 26 de abril de 2022. O resultado apresenta 2,2% de margem de erro a 95% de intervalo de confiança.

Izabella Souza

Repórter


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