Inflação ainda deve incomodar e queda do dólar pode ser positiva, analisa economista-chefe do Inter

Alexandre Diniz

Publicado 04/abr5 min de leitura

Resumo

Em live realizada na tarde desta segunda-feira (4), a economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória, comentou o cenário macroeconômico e como devem ficar os investimentos depois de um mês de março intenso

Março foi um mês de surpresas na economia e no mercado financeiro. Inflação apertada, queda do dólar frente ao real e os impactos diretos dos conflitos Rússia X Ucrânia no cenário econômico brasileiro foram apenas algumas delas. Muita informação para quem quer investir e, principalmente, para quem quer apenas entender como será a saúde do bolso no curto, médio e longo prazo. “Como devo me comportar?”. “A taxa de juros continuará apertada para contrair aquele empréstimo?”. “Devo comprar dólar para a viagem que estou planejando fazer daqui uns meses?”. Muitas dúvidas vêm a cabeça.

Com o objetivo justamente de simplificar a análise desse cenário e responder a essas e outras perguntas, a economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória, participou de uma live nesta segunda-feira (4) para a série ‘Mercado em Foco’, do canal oficial da companhia no YouTube.

Como já é de praxe no início de cada mês, a executiva esclareceu o panorama econômico nacional e internacional, deu dicas de investimento em um contexto ainda de inflação alta e comentou sobre as perguntas sobre dólar que, segundo ela, “vem recebendo bastante” nos últimos dias. Confira os principais pontos.

Surpresa incômoda: inflação ainda vai apertar no curto prazo

A Selic (taxa básica de juros) não para de aumentar. E a maioria da população, com o orçamento cada vez mais apertado, quer saber: quando a inflação e os preços vão para de subir? De acordo com Rafaela Vitória, infelizmente ainda não é tempo de parar de dar máxima atenção ao tema.

“Provavelmente veremos um IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) ainda alto, próximo de 1,40%. Isso vem refletindo a alta dos alimentos e alta da gasolina, que todos já perceberam. Essas altas são reflexos do conflito no Leste Europeu, mas também acontecem devido a uma alta geral no preço de commodities pelo mundo. Portanto, ainda não passamos o pico da inflação, infelizmente”, comentou a Rafaela.

A economista-chefe do Inter afirmou que devemos observar um mês de março ainda desfavorável e uma leve desaceleração da inflação em abril. Segundo ela, “alívio mesmo, provavelmente só em maio”, disse.

Surpresa positiva: a queda do dólar

Se por um lado as consecutivas altas de juros ainda não seguraram a inflação, por outro uma das surpresas, talvez, positivas do ano até então tem sido a queda do dólar frente ao real. Rafaela explica que alguns sinais disso já podiam ser observados ao final de 2021, mas que realmente os movimentos das últimas semanas surpreenderam.

“Alguns fundamentos de que isso poderia acontecer estavam no radar. No entanto, essa queda veio com uma força realmente que chama a atenção. O real se destacou entre as moedas emergentes na relação com o dólar. Para se ter ideia, voltamos ter um dólar no patamar do começo da pandemia. A valorização da nossa moeda é significativa e deve ajudar na inflação nos próximos meses, embora esse impacto demore alguns meses para ser refletido nos preços finais ao consumidor”, afirmou a executiva.

E nos próximos meses, o dólar deve continuar em baixa?

Extrema cautela nas previsões. Esse é o lema de ordem quando o assunto é câmbio. Rafaela explica que esse cuidado extra se deve pelo fato de que esse câmbio sofre influência de inúmeras variáveis. No entanto, as previsões tendem a ser relativamente positivas.

“Os juros, os preços das commodities e principalmente o fluxo deixam essa previsão mais incerta. Mas o que pode realmente acontecer é uma melhora no cenário fiscal e, embora ainda tenhamos problemas estruturais, isso ajudará a trazer fluxo para o Brasil. Diria que a tendência no curto prazo é de um real valorizado, no patamar de R$ 5 em relação ao dólar. Porém, devemos lembrar que este é um ano de eleições e alguns debates estão só começando”, disse.

A economista ainda completa: “Temos algumas incertezas para 2023 que podem influenciar no tema e voltarmos a um patamar mais alto do dólar. Mas hoje esse não é o cenário base..

A pergunta de milhões: é um bom período para comprar dólar?

Segundo Rafaela Vitória, depende. Para quem quer diversificar os investimentos, sim, sempre é bom esse tipo de movimento. “Diversifica e investir sempre é a melhor estratégia que podemos ter para expandir carteira. Mantemos a recomendação de alocação de artigos no exterior. Existe uma expectativa não tão favorável para a bolsa americana, como a vimos nos últimos anos, mas ainda assim observamos um cenário com boas empresas por lá tendo retornos positivos. Olhando para o longo prazo é interessante ter essa diversificação”.

E para viajar, é bom esperar ou comprar dólar agora? A resposta em meio a uma realidade de volatilidade grande é clara: melhor se garantir agora. “Para esses casos, esses é um bom momento para comprar e eu não esperaria. Não descartamos ter um real mais valorizado. Temos modelos aqui que apontam até para um dólar a R$ 4,20, mas considerando de onde saímos e onde estamos hoje, se no seu orçamento uma viagem com o dólar a R$ 4,60 faz sentido, compre de uma vez para não ficar se preocupando. Se o câmbio cair, fica uma vantagem de compra adicional mais perto da viagem, por exemplo.”

Rafaela Vitória analisou o cenário econômico atual e respondeu perguntas dos participantes em live realizada nesta segunda-feira
Rafaela Vitória analisou o cenário econômico atual e respondeu perguntas dos participantes em live realizada nesta segunda-feira

E a taxa de juros, como fica?

A expectativa para a Selic continua sendo de mais uma alta de um ponto percentual na próxima reunião do Copom. Após isso, espera-se o fim do ciclo. Rafaela ressalta que oi que alguns fatores favorecem esse cenário de juros parando de subir.

“Um deles é câmbio mais favorável. No entanto, devemos levar em consideração que a Selic chegou a um patamar muito elevado. Estamos falando em um juro restritivo de 6% a 7% e isso é bem contracionista para a nossa economia. No cenário em que estamos, essa alta dos juros vai começar a refletir em uma economia mais fraca. A demanda doméstica deve continuar um pouco mais reprimida esse ano e Isso tudo pode fazer com que o Banco Central interrompa esse ciclo de altas em maio”.

Mas o que pode fazer com que o Banco Central suba ainda mais os juros? Inflação ainda mais alta por mais tempo. “Se tivermos uma inércia maior, o BC pode querer ajustar essa taxa de juros ainda em junho. Mas a princípio, o câmbio e os sinais de consumo mais fracos devem contribuir para a que a inflação caia um pouco a partir de maio”, comentou a economista.

Inflação e a bolsa: Por que o mercado disparou em março?

A verdade é uma só: não existe uma explicação única e fundamental para isso. A economista-chefe do Inter contou que a bolsa vinha de um período muito descontado, com prêmio de risco muito alto. E todo esse movimento de alta deixa um lembrete para o investidor: não espere demais. Aquele papo de ‘vou esperar a Selic cair’, ‘vou esperar as eleições passarem’ ou mesmo ‘vou esperar o cenário melhorar’ não funcionam.

“Se você espera tudo isso acontecer a bolsa sobe antes da decisão ser tomada. Essa alta mostra que a ela é muito volátil e esse momento de inflexão, quando a mudança de humor do investidor muda é muito imprevisível. Por isso, mantemos a recomendação de ter uma carteira diversificada. Acertar esse momento exato de entrar e sair de bolsa é muito difícil e esse é um bom exemplo para incentivar a diversificação”, ressalta Rafaela.

Rafaela destacou: “Quando todo mundo falava que agora seria hora da renda fixa, a bolsa está ganhando cerca de 15% no ano”.

Quer acompanhar em detalhes esses e outros assuntos analisados por Rafaela Vitória na live da série Mercado em Foco? Confira o vídeo:

Live da série mensal Mercado em Foco

Alexandre Diniz

Repórter


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