Folha de flandres faz preço da cesta básica subir

Alexandre Diniz

Publicado 13/out5 min de leitura

Resumo

Você sabe o que são folhas de flandres? Elas têm papel decisivo no preço que você vem pagando nas compras de supermercado

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Foto: Envato Elements

Uma ida de rotina ao supermercado. No meio das compras do mês, aqueles tradicionais produtos enlatados que quase sempre são usados no dia a dia. Uma lata de sardinha, milho verde, leite em pó ou até um molho de tomate. Quem vê, nem imagina, mas a alta nos preços desses itens pode estar relacionada ao alto custo do material utilizado nessas embalagens metálicas. O nome do material? Folha de flandres. Mas você sabe o que elas são?

A folha de flandres

Folha de flandres é nome dado um laminado a frio de aço-carbono, com os dois lados revestidos por estanho puro. Ela não é encontrada na natureza, mas obtida mergulhando-se uma lâmina de ferro em estanho fundido, o que a deixa revestida pela camada protetora de estanho. Desenvolvida para evitar a corrosão e a ferrugem, a folha de flandres é muito usada na fabricação de latas para acondicionamento de alguns alimentos, óleos, utensílios domésticos e industriais.

De acordo com a Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos), a folha de flandres tem participação de até 25% nos custos de produção dos alimentos industrializados.

Nos últimos 12 meses, no entanto, esse insumo teve reajuste de mais de 100%. Se o custo de produção aumentou, o custo final do produto também. Resultado? Impacto para o consumidor, principalmente naqueles itens que compõem a cesta básica e que levam o laminado na embalagem. Para se ter ideia, o aumento para quem vai às compras chega a 10% em média, podendo superar até os 16%.

Por que ela ficou mais cara?

Segundo o presidente executivo da Abia, João Dornellas, o grande impacto no mercado ocorreu no segundo semestre de 2020, quando a indústria de alimentos passou a enfrentar dificuldades no abastecimento da folha de flandres. O desligamento de um alto forno responsável por essa produção foi um dos motivos. Mesmo com sua reativação tempos depois, a sua plena capacidade demorou a ser alcançada.

“De um ano para cá, o material aumentou muito de preço por conta da oferta restrita no mercado interno. Esta situação é agravada pelo fato de haver somente um fabricante e devido à alta demanda e à baixa capacidade dessa empresa em atender todo o mercado”, analisa Dornellas.

Atualmente, a entrega do produto está em atraso de cerca de 25 dias, com tempo de espera ‘lead time’ – que é o período gasto pelo sistema de produção para que a matéria-prima se transforme em item finalizado, pronto para entrega - de 55 dias, se comparado com os 30 dias em condições normais. Além disso, a existência de um imposto de importação de 12% tem um impacto negativo na competitividade das importações e da livre concorrência entre fornecedores nacionais e internacionais.

“Enquanto os custos seguem uma mesma tendência globalmente, o imposto para fornecimentos internacionais favorece o aumento e nivelamento dos preços das empresas nacionais o que, finalmente, faz com que os preços (analisados em dólares) no mercado doméstico sejam maiores do que os praticados no mercado internacional”, analisa o presidente executivo da Abia.

Dornellas comenta que a existência de um monopólio na produção nacional de folha de flandres, a barreira tarifária e as oscilações de valor entre moedas “impossibilitam uma maior velocidade de ajuste aos movimentos de oferta e demanda pelo produto. Como consequência, tem-se o aumento de custos nos insumos industriais”.

Foto: Divulgação
Produtos enlatados do dia a dia ficaram mais caros por conta da folha de flandres (Foto: Divulgação)

Se aumentou para o consumidor final, quais as soluções para o problema?

O problema começa lá atrás, na produção, mas recai sobre o bolso da população, que compra diariamente os produtos que levam flandres. Quais as alternativas, então, para que o consumidor final pare de pagar tão caro por um produto por conta do custo da embalagem?

Na tentativa de minimizar esses impactos, o presidente executivo da Abia conta que a associação enviou, ainda em junho, um pedido de redução do imposto de importação de flandres para a Camex (Câmara de Comércio Exterior). O pedido foi parcialmente aprovado e seguiu para a Gecex (Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior). De acordo com João, uma resposta positiva é aguardada em breve.

Outro caminho que pode ajudar a solucionar a questão é investir de maneira consistente em novas fábricas do insumo.  Com investimentos assim, é possível balancear a dependência do único fabricante nacional e de outros países produtores (os principais hoje são China, Alemanha, Coréia do Sul, Estados Unidos e Japão).

“A indústria e o consumidor saem perdendo. Os produtos que sofrem os maiores impactos nos preços ao consumidor final são aqueles que estão na cesta básica. Portanto, devemos lutar por soluções o mais rápido possível”, finaliza Dornellas.

Alexandre Diniz

Repórter


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