Em tempos de inflação alta, vale a pena parcelar compras no cartão?

Izabella Souza

Publicado 05/ago6 min de leitura

Resumo

Com juros altos, renda desvalorizada e dólar acima de R$ 5, a pressão no bolso do trabalhador está cada vez maior. Para especialistas, é preciso cautela na hora de usar o cartão de crédito

Com uma inflação alta e implacável, muita gente só tem conseguido fazer as compras necessárias com o cartão de crédito. Mas, além do avanço generalizado dos preços, essa alternativa também sofre com os efeitos da alta da Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira, que nesta semana teve sua 12ª alta consecutiva.

Por isso, é preciso considerar e calcular o impacto de cada parcelamento no orçamento mensal. E o primeiro passo para isso é lembrar que ter um cartão de crédito não significa, necessariamente, que você tenha dinheiro para gastar. Na verdade, esse é um dinheiro que você ficará devendo.

Tem que saber usar!

Mas, sabendo usar, é possível tirar um bom proveito das possibilidades que o parcelamento no cartão crédito oferece, o que passa por um bom planejamento financeiro.

“Evitar realizar compras parceladas é uma das principais formas de driblar o endividamento. Por isso, é importante fazer as contas antes para saber se aquele gasto está dentro do orçamento. Uma dica é se perguntar se o valor pode ser quitado à vista no momento que a fatura chegar. Outra ação simples, que ajuda e muito nessa dinâmica, é acompanhar constantemente os gastos no aplicativo do cartão ”, orienta Andrea Avedissian, brand manager da Zippi Soluções de Crédito.

Com esse uso consciente, é possível evitar o endividamento e aproveitar as diversas vantagens que esse meio de pagamento pode oferecer.

Facilidade e agilidade no momento da compra, mais segurança em caso de roubos, furtos e golpes, controle dos gastos em tempo real por meios dos apps e a ajuda em momentos de sufoco, quando precisa-se de um dinheiro rápido para comprar algo, são alguns deles. Sem esquecer, claro, os benefícios como cashback, programas de pontuação em milhas e até salas vip em aeroportos.

Mas, para isso, é preciso ter sempre em mente que, de compra em compra, a fatura vai aumentando. E isso inclui, principalmente, aqueles pequenos valores que parecem inofensivos, que vão sendo somados às parcelas de compras de maior valor.

É o que ressalta Ana Paula Pisaneschi, especialista em Credit Scoring e CEO do Uffa, marketplace de autonegociação. “Ao parcelar um celular em 12 vezes, por exemplo, é preciso estar ciente que esta dívida te acompanhará por 1 ano, sem pausas. Você realmente consegue arcar com essas parcelas todo mês? Se não, busque alternativas mais baratas ou se organize para tal”, indica.

Parcelamento para driblar e inflação e investir

Considerando tudo isso, o parcelamento pode valer à pena quando o produto ou serviço tem um alto valor agregado. É o que defende o educador financeiro Marcos de Souza: “Seria o caso de eletrodomésticos, eletrônicos e itens para trabalho, por exemplo. Até como forma de driblar a inflação, porque parcelando um item mais caro, você paga o produto durante meses com o preço de um ano atrás, por exemplo”.

Isso porque a inflação é a variação dos preços em decorrência da perda ou ganho de valorização de uma moeda no curso do tempo. E isso se reflete diretamente no nosso poder de compra.

É o que tem acontecido ultimamente, com preços sempre subindo. Sendo assim, suponhamos que você tenha R$ 100 hoje e que a inflação cresça 10% no próximo ano. Dentro desse período, você terá perdido R$ 10.

Marcos também destaca que o parcelamento pode ser uma forma de ganhar dinheiro: “Quando a pessoa tem a quantia necessária para fazer a compra à vista, ela pode investir esse montante e gerar um dinheirinho com o passar dos meses por meio do rendimento”.

Esse mesma estratégia foi destacada na série Gatilhos Mentais de Consumo, na qual o Inset explicou as táticas mais usadas pelo varejo para fazer as pessoas gastarem mais.

Nela, os especialistas também indicaram que, caso não haja nenhum desconto na compra à vista, é melhor parcelar a compra, investir o valor que seria gasto na hora, de uma só vez, e ir ganhando com os juros.

Mas essa tática demanda muita organização e alguns cálculos. Além disso, caso haja desconto, é preciso verificar se o valor do abatimento e do rendimento se equiparam.

Se o desconto oferecido for maior que a rentabilidade, vale mais a pena comprar à vista. Se a rentabilidade do investimento for maior que o desconto, é financeiramente melhor parcelar. E claro: desde que o parcelamento não acrescente nenhum valor no produto e que o investimento escolhido seja com liquidez e sem risco, onde é possível fazer o resgate sem pagar nada.

Com a elevação da taxa básica de juros, aumentam rendimentos de investimentos em renda fixa e aplicações financeiras que acompanham a Selic como CDBs (Certificado de Depósito Bancário), títulos privados e títulos do Tesouro Direito.

Na busca por vantagens, não vale tudo!

Outro ponto de alerta destacado por Marcos é considerar se há, ou não, uma certa estabilidade financeira. “Antes de aplicar essa estratégia e entrar de cabeça nos parcelamentos, é preciso saber o quão segura a renda está. Se ela não for estável e minimamente garantida, a pessoa não deve fazer compras com muitas parcelas. Mas um servidor público, por exemplo, já pode fazer isso com mais tranquilidade”.

Justamente por essa questão, a educadora financeira Ana Luiza Silva defende que qualquer parcelamento só seja feito em casos de urgência e extrema necessidade. “O ponto é que a pessoa parcela uma compra grande, cara, em 12, 16, 20 vezes, mas não sabe do dia de amanhã. Nesse período, além de todos os imprevistos que podem acontecer, ela pode inclusive ficar desempregada”, pondera.

“Por mais que haja vantagens, não podemos esquecer que as parcelas são dívidas e que, para elas não se acumularem, é uma missão muito, muito difícil. Me preocupa que a pessoa não tenha a maturidade, organização e disciplina necessária para parcelar essas compras mesmo que ela tenha um dinheiro à vista, porque os gastos no cartão vão sempre se acumulando”.

Crédito rotativo, a modalidade mais cara do mercado

E quando a fatura vira uma “bola de neve”, muita gente se enrola ainda mais com o crédito rotativo, uma das principais formas de endividamento com o cartão.

O crédito rotativo é oferecido pelas operadoras quando o cliente não consegue pagar a conta por inteiro e, dessa forma, faz um pagamento parcial ou mínimo dela. Funciona como uma espécie de empréstimo a curto prazo, quando o saldo devedor é deixado para ser pago na fatura seguinte.

À primeira vista, pode até parecer uma saída viável, mas essa é considerada a modalidade de crédito mais cara do mercado. O motivo é a série de encargos que encarecem, e muito, o valor final a ser pago pelo consumidor. Para se ter uma ideia, em abril, a taxa de juros do cartão de crédito no rotativo chegou a incríveis 364,0%.

Izabella Souza

Repórter


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