Dinheiro na música: motivo para chorar miséria e ostentar

Lucas Eduardo Soares

Publicado 18/mar5 min de leitura

Resumo

Dinheiro é tema recorrente em canções por fazer parte do cotidiano e das relações humanas. Playlist elaborada pela equipe do Inset reúne algumas das músicas que falam sobre o assunto

Beth Carvalho, Rihanna, Martinho da Vila e Beatles
Canções falam sobre dinheiro em diversas situações. Beth Carvalho é a intérprete de "Saco de Feijão"; Rihanna pede "Bitch better have my money"; Martinho da Vila se questiona: "Pra que dinheiro"; enquanto os Beatles declaram "Baby you're a rich man" (Fotos: Reprodução)

Você já ouviu a canção que nos lembra que “dinheiro na mão é vendaval”? E aquela em que o cantor declara que “não quer dinheiro, só quer amar”? Ou a marchinha que clama “ei, você aí, me dá um dinheiro aí”? Essas são algumas das inúmeras músicas que conhecemos que introduzem em seus versos a presença – ou a falta? – dos símbolos de troca que conhecemos e utilizamos no mundo moderno. Dinheiro, money, grana, cash, vintém, bufunfa, trocado ou dindim. Chame, e cante, como quiser. Afinal, a realidade é que a presença desses elementos nas expressões culturais se dá pela vivência dos cancionistas e pela adesão de seu entorno.

É que a história da música popular tem lastro e se consolida na medida em que populares, ou pessoas que não se pautam pela música abstrata, erudita, se utilizaram de elementos musicais, dos ritmos, para dizer, brincar, lamentar, festejar o seu cotidiano. Quem diz isso é o professor-adjunto da Escola de Música da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), mestre em História e doutor em Música Popular, Ricardo Lima. Segundo ele, os agentes da música popular não estão submetidos a um padrão e falam sobre si, sobre o que é corriqueiro. Inclusive, sobre a forma de dizer e construir suas melodias.

“Grandes artistas não dominavam sequer um instrumento, como Wilson Batista, e retiravam da forma da fala cotidiana, observando aquilo que era próprio da vivência. As suas querências, as suas mazelas, as suas vontades, os seus sonhos e seus perrengues. Tudo isso era combustível para dizer. E dizer cantando”, conta Ricardo Lima. “Se a gente quer conhecer um pouco, ou um tanto, de pessoas silenciadas, o melhor que se pode fazer é procurar nas canções essas vezes. A música é um lugar democrático, e não existe um código”, acrescenta.

E o dinheiro com isso?

E é aí que entra o dinheiro. Afinal, se a gente sabe o dinheiro faz parte do dia a dia, ele aparece nessas canções representado de diversas formas. O professor da UFRN lembra a década de 1910, com o “nascimento” do samba. Naquele período, a música “Pelo Telefone”, de Donga, se apresenta como um marco do gênero. “É um tempo de negros que haviam sido libertos há pouco tempo, que ainda viam a escravidão de muito perto, e que se observavam sem lugar social garantido”, sinaliza Lima. Ou seja, esse assunto uma hora ou outra encontraria versos e ritmos.

É que o dinheiro é, nada mais, nada menos, que um meio para as pessoas fazerem trocas. Doutor em Finanças e coordenador do curso de Administração do Ibmec, Eduardo Coutinho explica que é uma mercadoria que se usa como intermédio para essas “permutas”. “Já se usou placa de argila, sal, concha, metais preciosos. Houve uma gama de instrumentos utilizados. Mas, para ser eficiente, precisa de algumas características, como divisibilidade, durabilidade, facilidade de portar e carregar”, rememora. Por isso, de acordo com ele, o dinheiro é uma forma de expressar que você foi útil a alguém. “No fundo, estamos falando de sobrevivência. No fim, se você começa a sentir a escassez, a tendência é que fique ansioso e gere conflitos.”

Coutinho comenta o espaço de críticas nos versos e lembra da música “Saco de Feijão”, interpretada por Beth Carvalho. A sambista reclama:

“De que me serve um saco cheio de dinheiro

Pra comprar um quilo de feijão (Me diga gente)

De que me serve um saco cheio de dinheiro

Pra comprar um quilo de feijão

No tempo dos derréis e do vintém

Se vivia muito bem, sem haver reclamação

Eu ia no armazém do seu Manoel com um tostão

Trazia um quilo de feijão”


Citação
No caso da música, a transição dos réis para os cruzeiros foi feita em 1942. Depois, nas próximas décadas, houve um período inflacionário bastante acentuado que incomodava o cidadão. Aquilo é uma forma de expressar que na outra época, havia menos esforço. Pegava um punhado de dinheiro e voltava com um pacote de feijão. Justamente expressão desse desconforto com a desvalorização que o dinheiro sofreu naquela época.”
Eduardo Coutinho, doutor em Finanças e coordenador do curso de Administração do Ibmec

Outra recordação do professor é “Pra que dinheiro?”, do Martinho da Vila. Nela, o compositor e intérprete questiona a importância de moedas e notas se a amada “não lhe dá bola”.

"Dinheiro pra que dinheiro

Se ela não me dá bola

Em casa de batuqueiro

Só quem fala alto é viola"

“Não adianta nada ter dinheiro se a moça não te quer. É uma música que fala sobre a valoração, que, na sua visão, supera o âmbito financeiro. Mas é importante ressaltar que se você ignorar o dinheiro e se preocupar apenas com as relações humanas, os boletos continuam chegando e precisam ser quitados”, brinca Eduardo Coutinho. A música do artista fluminense pode ser escutada no YouTube nesse link.

Constante evolução

Sim, na origem do samba – e do que se conhece a respeito da música popular – o tema da escassez é bastante recorrente. O professor da UFRN Ricardo Lima comenta que há maneiras diferentes de se falar sobre o assunto, inclusive de maneira “galhofeira”. Ele cita “Acertei no Milhar”, de Moreira da Silva, em que o eu-lírico “Morangueira” acerta pontos da loteria e ganha 500 contos. Nos versos, declara que não vai mais trabalhar, manda Etelvina doar roupa velha aos pobres e quebrar a mobília. Ele cria tantos planos, mas, no fim, não se passa de um sonho. E que sonho.



Dá o play

Quer ouvir mais músicas que falam sobre dinheiro? O Inset preparou uma playlist com mais de 40 cançôes que tratam do assunto – das formas mais variadas possíveis, de todos os ritmos, em várias línguas. Uma lista eclética, no sentido mais literal. Ou musical. Aqui, você vai escutar Paulinho da Viola, Pink Floyd, Rihanna, Rosalía, Beatles e até a diva Marilyn Monroe. Você pode ouvir pelo Spotify, ou pelo YouTube. O que importa é cantar junto. 

Lucas Eduardo Soares

Repórter


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