Será que veremos um aperto monetário maior que o necessário?

Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter e colunista do Inset

Rafaela Vitória

Publicado 21/mar3 min de leitura

Resumo

Uma elevação agora da Selic terá efeito na inflação somente em 2023. Para o restante de 2022, já temos um ajuste bem significativo na taxa para ser sentido na economia, afinal, a taxa Selic saiu de 2% em março do ano passado para os atuais 11,75%

O Copom subiu os juros mais uma vez em março, em um ponto percentual e adiantou que pretende novamente elevar a taxa na próxima reunião, em maio, em mais um ponto, levando à Selic de fim de ciclo para 12,75%. No mercado, alguns analistas acham que pode ir até mais e vemos previsões de taxas chegando perto de 14%. Mas será que precisamos um aperto monetário dessa magnitude?

A inflação de fato teve forte elevação nos últimos meses, foram vários choques de oferta consecutivos e já vemos alguns sinais de contaminação que vão além dos itens afetados, como alimentos e combustíveis. Uma inflação alta por mais tempo eleva o risco de inércia, ou seja, que ela permaneça alta. Esses sinais de inércia são observados hoje tanto nos componentes de serviços, como aluguéis, por exemplo, como nas expectativas de inflação que seguem desancoradas, apesar da elevação dos juros ter sido bem acima do esperado pelo mercado.

O Banco Central possui mandato de manter a inflação na meta e a política de aperto monetário é apropriada no cenário atual. Mas com a taxa já em patamar tão alto, a discussão se volta para a necessidade de novos ajustes, considerando os riscos atuais.

Um ponto importante da política monetária é a defasagem do seu impacto. Uma elevação agora terá efeito na inflação somente em 2023. Para o restante de 2022, já temos um ajuste bem significativo na taxa para ser sentido na economia, afinal, a taxa Selic saiu de 2% em março do ano passado para os atuais 11,75%.

As novas concessões de crédito já estão bem mais caras e o ambiente de maior risco econômico também impacta na menor liquidez no mercado bancário e no mercado de capitais, aumentando o risco de uma retração no crédito ainda maior, devido à potencial alta da inadimplência. A demanda das famílias também dá sinais de fraqueza. 

Em 2021, o consumo das famílias teve um modesto crescimento de 3,6% e para esse ano deve ficar próximo de 0. Com a massa salarial estagnada e crédito mais caro e escasso, o consumo deve permanecer fraco no ano, mesmo com pontuais estímulos como a liberação do FGTS e antecipação do 13º dos aposentados e servidores públicos. Os investimentos também devem desacelerar, com juros reais beirando 7%, considerando a taxa Selic atual e quase 6% nas taxas longas de mercado, muitas decisões de investimento tendem a ser adiadas.

Comparando com o ciclo de alta da Selic anterior, quando a inflação também chegou em 10% e a taxa de juros foi a 14,25%, duas diferenças chamam a atenção. Primeiramente, até 2015 tivemos forte expansão fiscal. O crescimento de gastos só foi controlado após a lei do teto de 2016 e, posteriormente, com a reforma da Previdência, aprovada em 2019. Vale lembrar que uma política fiscal expansionista tende a resultar em mais inflação e isso não ocorre no momento. 

Apesar da expansão fiscal em 2020, ano crítico da pandemia, o déficit primário de 9,4% se transformou em superávit de 0,8% em 2021, e devemos novamente ver superávit em 2022, mesmo com as recentes desonerações anunciadas. O controle de gastos hoje faz parte do nosso arcabouço, apesar dos ruídos nas discussões políticas. 

Em segundo lugar, vale destacar que, além da expansão fiscal até 2015, tínhamos significativos subsídios de crédito, principalmente via concessões do BNDES a taxas bem menores que a Selic. A TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) na época era em média de 6% ao ano. Essa prática reduzia a potência da política monetária e a Selic tinha que subir ainda mais, como um efeito compensador. Na ausência desses fatores no ciclo atual, a potência da política monetária tende a ser maior e ainda não vimos todo o seu impacto na economia.

O cenário é ainda de muita incerteza e o elevado preço das commodities no mercado internacional, que mais uma vez afetam os combustíveis e alimentos, geram grande preocupação. Porém, o Banco Central poderia adotar uma postura de maior cautela, considerando tanto o efeito mais potente da política monetária, quanto a sua defasagem, que vão atuar nos próximos meses. 

A surpresa positiva da taxa de cambio hoje em R$ 4,90 é um bom exemplo, quando comparamos com as expectativas no início do ano, em que estavam mais próximas de R $5,50. Os próximos passos devem ser tomados com base na evolução do cenário e deveriam, inclusive, levar em consideração que já podemos ter uma taxa elevada o suficiente para trazer a inflação para a meta até 2023.

Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter e colunista do Inset

Rafaela Vitória

Economista-chefe do Inter


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