Juros em alta no mundo

Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter e colunista do Inset

Rafaela Vitória

Publicado 20/jun3 min de leitura

Resumo

Após anos de inflação abaixo de médias históricas e taxas de juros perto de zero, risco de recessão leva a ajustes econômicos globais que vão impactar alocações de capital e dificultar novos investimentos

Depois de muitos anos de juros baixos, entramos em um novo ciclo de ajuste da política monetária globalmente. Aqui no Brasil, também convivemos com juros menores, não tão baixos e não por tanto tempo como nos EUA e na Europa, mas hoje também passamos um momento de importante ajuste das taxas de juros. Por que ele acontece e quais as consequências?

A taxa de juros nos EUA ficou próxima de zero desde a crise de 2008. Entre 2018 e 2019 os juros tiveram leve alta para 2%, mas em 2020 voltaram para zero. Taxa de juros nominal zero significa juros reais negativos, pois a inflação, apesar de baixa, permaneceu próxima de 1,8% em média no período. Na Europa, o ECB também mantém juros negativos desde 2008. A política de estímulo monetário contribuiu para um longo ciclo de crescimento econômico e recuperação depois da crise de 2008. 

E de fato tivemos um período de inflação abaixo da média histórica, tanto nos EUA como em diversos outros países desenvolvidos.  Foi um período em que até se discutiu o fim da inflação, como os bancos centrais haviam conseguido amenizar os ciclos econômicos sem picos de inflação ou recessão. O crescimento da China nessa época, além de mudanças tecnológicas, contribuíram para o aumento da oferta global de bens e, mesmo com juros abaixo do nível neutro, não houve pressão inflacionária significativa.

A mudança que estamos observando nos últimos dois anos é bastante significativa, mesmo para padrões históricos mais antigos, mas especialmente comparando com o passado recente. Não é só uma mudança conjuntural, mas histórica. A redução de oferta durante a pandemia, notadamente na produção de combustíveis, mas também com os gargalos nas cadeias de suprimento industrial, tem em parte a razão da alta de preços. Mas outras mudanças de comportamento ocorreram nesse período. 

A redução de investimentos em novas capacidades de energia fóssil e agora o movimento de adaptação das cadeias de produção vão encarecer processos produtivos, devido à menor eficiência em favor de maior segurança e energia renovável. A guerra na Ucrânia adicionou restrições de oferta, mas também é importante destacar que a demanda foi fortemente estimulada durante a pandemia. 

A recessão causada pela primeira onda da pandemia foi seguida de massivos estímulos por parte dos governos, além de monetário, também somando-se a gastos fiscais, principalmente via transferências. Essa combinação de fatores resultou em uma tempestade perfeita que resultou em um movimento inflacionário inédito nos últimos 40 anos.

Uma demanda superaquecida e desequilíbrios de oferta precisam ser combatidos com aperto monetário. A elevação dos juros deve contribuir para desaquecer a demanda, mas o risco de recessão está cada vez maior. A inflação muito alta vem gerando distorções e impacta principalmente as famílias de baixa renda. No entanto, reduzir preços via novos aumentos de capacidade pelo lado da oferta vai levar tempo, e é importante um nível de juros maiores para conter em parte o crescimento da demanda.

Uma das novidades desse ciclo é sua simultaneidade e magnitude, por isso o risco de recessão é alto. Após anos de juros baixos, taxas na renda fixa que ultrapassam 3% são uma novidade e vão resultar em mudanças também nas alocações de capital pelos investidores. Para as empresas, juros maiores nos financiamentos vão pressionar margens e no curto prazo podem causar ainda mais inflação, além de dificultar os novos investimentos em novas capacidades. Ou seja, estamos diante de um longo ciclo de ajustes na economia global.

Aqui no Brasil, ciclos de alta de juros não são novidade, e o mercado vem se adaptando ao novo cenário. Apesar das incertezas do cenário de fora e condições financeiras globais mais apertadas, nesse momento, podemos dizer que esse é um benefício que deve contribuir para reduzir a inflação, uma vez que boa parte dela foi importada. O Banco Central elevou a Selic para 13,25%, saindo de uma taxa de 2% 15 meses atrás, o que é o maior ajuste da nossa historia, em tão pouco tempo. Também é o maior ajuste entre nossos pares emergentes. 

A taxa pode até ter chegado em um nível elevado demais. Saberemos nos próximos meses o tamanho do impacto desse choque na economia. Mas no cenário global hoje, esse movimento antecipado do Banco Central é uma vantagem que tende a proteger o câmbio e contribuir para uma queda mais rápida da inflação. Em conjunto com a manutenção do superávit fiscal, sem expansão significativa dos gastos públicos após 2020, a inflação deve voltar para o centro da meta até 2024.

Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter e colunista do Inset

Rafaela Vitória

Economista-chefe do Inter


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