A economia pós-pandemia

Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter e colunista do Inset

Rafaela Vitória

Publicado 11/mai3 min de leitura

Resumo

O cenário ainda é de cautela tanto pelas incertezas de muitas variações atípicas resultante da pandemia quanto pelo impacto do aperto monetário, que pode ser mais tardio, mas será inevitável retrair parte do consumo nos meses à frente. O desafio do Banco Central será definir como prosseguir com a política monetária

Temos navegado um cenário de muita incerteza desde o começo da pandemia em março de 2020. Vários dos eventos que se sucederam foram inéditos na nossa história e muitos dos impactos e transformações ainda são supressas para nós economistas.

O mais recente é o surpreendente crescimento da atividade no 1º trimestre do ano. Iniciamos 2022 com a perspectiva de uma estabilidade no PIB, com a política monetária mais restritiva, a inflação elevada reduzindo o poder de compra do consumidor e o setor público mantendo o superavit fiscal, o que significa também uma política mais contracionista. 

Os dados oficiais do PIB serão conhecidos no começo de junho, mas o que já foi divulgado pelo IBGE para os diferentes setores da economia até março, já apontam para um crescimento do PIB de 1% no trimestre. A principal surpresa veio do setor de serviços e do varejo.

Essa melhora na atividade também pode ser observada na recuperação mais acelerada do mercado de trabalho, conforme números tanto do Caged como da PNAD até março. A taxa de desemprego, por exemplo, teve queda para 11,1% até março, sendo que a expectativa no começo do ano era de um aumento para 11,6%. 

A arrecadação federal também bate recordes e o superávit é resultado do atual controle de despesas. Chama a atenção o crescimento da atividade apesar do aperto monetário em curso. Iniciamos o ano com Selic em 9,25%, que já embutia um aperto significativo de 7 p.p. desde março de 2021, e ainda com o discurso do Banco Central – confirmado posteriormente – de novas altas para território bastante contracionista.

Entre as explicações para o melhor desempenho da economia está a maior defasagem do impacto das políticas monetárias e fiscais que, nesse ciclo, parecem estar maiores que as usuais. Parte do consumo tem sido sustentada pela maior taxa de poupança que foi acumulada nos períodos de maior restrição devido ao lockdown e também pela maior renda das transferências fiscais e dos juros muito baixos. 

É importante considerar também o efeito da demanda reprimida, com uma parte dos setores de serviços somente voltando agora, principalmente ligados às famílias, como lazer e turismo. A demanda nesse momento parece ser um pouco mais imune aos juros maiores e ao crédito mais caro e mais escasso.

Mas ainda é um cenário de cautela. Tanto pelas incertezas de muitas variações atípicas resultante da pandemia, como pelo impacto do aperto monetário, que pode ser mais tardio, mas será inevitável retrair parte do consumo nos meses à frente. O Banco Central tem um desafio em como prosseguir com a política monetária. Uma das opções é manter a taxa de juros, que já está em patamar bastante contracionista, por um prazo mais longo, para uma convergência da inflação para meta. 

Esse cenário é compatível com o atual quadro fiscal que segue acumulando superávit primário, mas caso o risco de nova expansão fiscal se concretize, o Banco Central poderia voltar a subir os juros para ancorar as expectativas de inflação. Economia com um bom respiro nesse momento, mas cenário ainda requer cautela e prudência por parte da autoridade monetária nos seus próximos passos, e por parte dos economistas nas expectativas

Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter e colunista do Inset

Rafaela Vitória

Economista-chefe do Inter


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