Equipes diversas ajudam a direcionar novos olhares

Lucas Eduardo Soares

Publicado 17/jun3 min de leitura

Resumo

Certos tipos de sofrimentos mentais podem ser considerados deficiência, de acordo com a Lei de Cotas, e inclusão na sociedade passa pela inserção no mercado de trabalho

Um ambiente corporativo em que todas as pessoas pensam da mesma maneira não é capaz de conseguir, por meio de suas equipes, compreender o mundo em sua totalidade – ainda mais em um planeta cada vez mais globalizado e onde as pessoas têm valorizado, ou tentando valorizar, as diferenças. Nesse cenário, pessoas com algum tipo de deficiência, ou algum tipo de sofrimento que dificulte ou limite as condições de plena cidadania, têm tentado, cada vez mais, serem inseridas em lugares considerados até então inalcançáveis.

Há movimentos sendo feitos por ambos os lados. Tanto por quem sofre e sente na pele as privações históricas de espaços e, há décadas, têm tentado por meio da legislação ocupar espaços, quanto por quem já está nesses lugares e se mostra atento às novas realidades e projeções de um mundo mais equilibrado e bom para todos. Por essa segunda ala é que uma sigla tem sido cada vez mais adotada no mundo do trabalho: ESG (em português, Ambiental, Social e Governança).

Ou seja, a preocupação com futuro deve ser, sobretudo, para além da questão ambiental e de novas práticas que podem contribuir para a redução de gases de efeito estufa e consumo consciente, por exemplo. O ponto de vista social e de governança tem tanto peso quanto a preocupação com o meio ambiente e infere em estatísticas que demonstram a desigualdade no Brasil.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2019, por meio da PNS (Pesquisa Nacional de Saúde) mostravam que 17,3 milhões de pessoas com dois anos ou mais de idade tinham algum tipo de deficiência, ou seja, aproximadamente 8% da população brasileira. Delas, 2,5 milhões tinham alguma deficiência mental. Quanto ao rendimento domiciliar dessas pessoas, 197 mil viviam em domicílios sem salários ou com rendimento mensal de até ¼ do salário mínimo.

De acordo com Rubens Mazzali, professor de MBAs da FGV (Fundação Getúlio Vargas), algumas empresas há algum tempo têm adotado práticas de inclusão e de valorização da diversidade em seus quadros para cumprir cotas legais. Outras, no entanto, não incluem de forma adequada. “Entretanto, há um significativo número – e crescente – e de empresas que têm adotado a inclusão e a promoção da diversidade como propósito legítimo. Essas empresas perceberam que incluir e promover a diversidade vai muito além de cumprir exigências legais”, explica o professor.

De acordo com o docente, essas instituições aprenderam que a diversidade gera valor por meio do pensamento múltiplo, do olhar alternativo, de ouvir e falar em todas as línguas e gestos e acolher em todos os sentidos. “Empresas que já atingiram esse estágio estão menos sujeitas a riscos e crises, sendo mais desejadas por investidores e mais respeitadas pelo mercado”, pontua.

‘Medo’ é palavra-comum, mas ‘diversidade’ é palavra da vez

Na prática essa situação é muito delicada e mais difícil do que parece. Segundo Ivone Santana, secretária executiva da Reis (Rede Empresarial de Inclusão), há uma tendência muito evidente no ambiente corporativo em homogeneizar o tipo de pessoas que trabalham naquele espaço. O padrão é o mesmo, diz ela, de homens, brancos, heterossexuais e sem deficiência. “Esse padrão nós encontramos na grande maioria dos cargos e das posições, até mesmo em cargos de entrada”, fala.

Ivone conta que também faz consultorias com empresas e que a palavra-comum encontrada nos encontros é “medo”. Os gestores ficam aflitos em não saber como lidar, como conduzir, como incluir e, por isso, acabam recuando da vontade de contratar. “Esse receio tem um motivo. As pessoas com deficiência sempre foram segregadas da convivência, seja em manicômios, escolas especiais e outras instituições. Uma pessoa com deficiência pode ser legal, honesta, chata. Afinal, ela é uma pessoa com características humanas”, salienta Ivone.


Citação
Quando falamos em negócios, temos várias pesquisas que mostram, com dados específicos, que empresas que têm mais mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência, têm condições de ter retorno financeiro até 30% maior do que as empresas que têm grupo mais homogêneo. Isso acontece porque pessoas que vêm de outras experiências, realidades, culturas e características podem contribuir mais."
Ivone Santana, secretária executiva da Reis (Rede Empresarial de Inclusão)

Trabalho em conjunto

Psiquiatra e professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, Breno Fiuza pondera que é necessário um esforço do mercado de trabalho em acolher pessoas com sofrimento mental. Muitas vezes, diz ele, elas estão há anos sem trabalhar e são tratadas pela lógica do 8 ou 80: ou estão no mercado competitivo, ou estão afastadas por algum auxílio.

Por isso, o médico considera necessária a adoção de processos intermediários e uma inserção protegida. E isso, claro, envolveria uma cadeia de profissionais, desde os de saúde até recursos humanos, que saibam lidar com esse tipo de situação para não fortalecer estigmas e preconceitos.

“Existe a legislação que fala a porcentagem, a depender da quantidade de empregados, destinada a pessoas com deficiência de maneira geral. E para a legislação, transtornos mentais graves são considerados deficiência. Mas isso não quer dizer que tenham deficiência intelectual”, pontua Fiuza, salientando que alguns sofrimentos estão incluídos na lei, pois, de forma geral, deficiência é toda a dificuldade que a pessoa tem para o pleno exercício da cidadania.

O psiquiatra diz que ainda é perceptível a preferência de empresas por pessoas com quadros menos graves, mais leves e com poucas dificuldades para uma adaptação inicial. Mas que uma forma de evitar essa situação passa por uma palavra que é capaz de desarmar até mesmo aqueles que têm preconceitos antigos: contato.

“Quando temos contato com o desconhecido, ficamos expostos e desfazemos estigmas. Ao ser exposta em um ambiente trabalho alguém com esquizofrenia, por exemplo, muitas pessoas podem deixar de acreditar que esquizofrênicos são violentos, por exemplo. É bom para a sociedade, de forma geral, conviver com a diferença. Precisamos ter diversidade para combater esses tipos de pensamentos”, propõe Fiuza.


Esse conteúdo foi útil?

Siga o Inset

Conheça o Inter

De banco digital para plataforma de serviços integrados: o Inter se reinventou e cria o que simplifica a vida das pessoas.